domingo, 13 de julho de 2014

História da Dominação




DENUNCIE O NEOFASCISMO BRASILEIRO que está ATUANDO NAS INSTITUIÇÕES DE ESTADO COMO RIO DE JANEIRO


        A DITADURA CAPITALISTA - HISTÓRIA DA DOMINAÇÃO


                                       Eliane Colchete


         O Brasil "petista" é uma ditadura sem contestação a sério por parte da "comunidade internacional" que protagoniza atualmente a falácia do "mundo livre". Ou seja, sem contestação por parte dos agentes do Capitalismo Central, agentes da repressão às nações realmente livres, as quais só podem vir a ser pela construção da nacionalidade como ambiente da expressão cultural, econômica e existencial heterogênea local.
          A causa, o IMPERIALISMO, é por DEMAIS conhecida, não obstante a limitação da educação no Brasil atual a igrejas e ideologias passadistas tornar o que é em todo mundo axiomático, um conteúdo praticamente revolucionário, de tão impraticado. Neste Blog, a História da Dominação se expõe, com interesse de desfazer qualquer suposição que ainda reste, do capitalismo como "progresso" humano e/ou político.





      1) A bandidagem da firma capitalista: suas origens históricas, seu alcance planetário

 

 

       A leitura de A evolução do Capitalismo, de Maurice Dobb, permite notar que nenhuma das formas conhecidas como "pós-estruturalistas", como as de Foucault e Deleuze-Guattari, é adequada para tratar o período que construiu o capitalismo. Este período é o do escravismo colonial, quando começou o roubo dos territórios e povos da América Latina pelos capitalistas europeus, que na Europa estavam apenas numa fase adiantada de roubos e brutalidades contra a própria população. Maurice Dobb e Leo Hubberman tratam com informação real, e não mera especulação "conceitual", o que é o capitalismo nascente.

         O processo de formação capitalística tem sua mola na capacidade de domínio sobre uma população redutível a mão de obra farta, barata, sempre disponível, e nas falcatruas jurídicas pelas quais foi feita transferência de renda das famílias que não participavam dessa dominação , mas que tinham suas riquezas ligadas a formas de exploração mais antigas, para os capitalistas.

        Ou seja, nem se trata do condão "aventureiro" de se fazer viagem, ao contrário do que pensava Deleuze, nem se trata de qualquer proeminência da figura do louco quanto ao processo de exclusão social em massa que acontecia então, ao contrário do que sugeriu Foucault. 

          

      



Não se esperou a Revolução Francesa ou Pinel, para de uma triagem do contingente aprisionado fazer o louco destinado ao hospício e o vagabundo destinado ao mercado de trabalho. Pelo contrário, ao inverso do que parece pretender Foucault, desde o final do medievo é desse mercado que se trata, como do desapossamento dos até aí assentados pequenos proprietários, seja de sua parcela na gleba dos servos, seja dos instrumentos da produção artesanal.


O estudo das formas utilizadas em tal desapossamento, por M. Dobb ("A evolução do capitalismo") , extrapola em muito o estereotipado item dos "cercamentos" já reportados por Marx - o processo pelo qual os nobres ingleses proprietários de terras teriam se convertido em proto-capitalistas e logo, em burgueses, ao expulsar os servos dos seus campos para transformá-los em pastagens de ovelhas cujo interesse estava no seu aproveitamento na indústria têxtil. Tangencia-o, certamente, mas surpreende aos que se cingem àquela descrição.


As operações de interesse econômico realmente atravessam a história das penalidades, mudando a imagem do processo para o de uma brutalidade atroz, com grande ênfase no apartheid social generalizado.


Aqui a "racionalidade" weberiana perde totalmente a pertinência, pois em vez de algum processo de conversão religiosa à poupança honesta e pessoal, o que se verifica é a profusão de medidas governamentais amparando uma classe extremamente gananciosa de capitalistas, agindo em conjunto na monopolização do Estado. Por um lado açambarcavam as propriedades no campo pelos meios mais ilícitos, para fazerem imensos domínios territoriais, por outro lado pressionada em vários sentidos a população desapossada que não tinha algum meio de compensar as perdas por influência social de estamento como poderia ser o caso da nobreza quando era ela a desapossada.


Por esse outro lado, a questão não é mais observar como os meios ilícitos eram ao mesmo tempo fartamente utilizados e tolerados pelas autoridades, uma vez que resultavam no enriquecimento de grupos então tornados poderosos de modo a influenciar a própria composição dos governos, mas sim como foi o caso da distorção dos aparatos da legalidade.


As vítimas do primeiro modo de ação ilícita por parte dos elementos "burgueses" - não meramente a população moradora da cidade ou plebeia, mas grupos de homens ricos especificamente atuantes dessas transações de negócios geralmente amparados pelo sistema do monopólio real - foram com efeito os nobres proprietários de terras acomodados ao antigo sistema agrário, sem vínculo com o novo mundo dos negócios. Mas as vítimas do segundo modo de ação foram os pobres, que se tornaram objeto das mais cruéis torturas não só permitidas pela legislação, mas propriamente prescritas por ela. É claro que o aumento do número de pobres decorreu também da concentração fundiária pela expulsão dos lavradores. Houve um acréscimo de desapossados, não um aumento demográfico dos servos.
Os acontecimentos que pontuam a trajetória dessa distorção do direito constituído não esperam a época clássica, ainda que sejam diferenciáveis no tempo pelas circunstâncias.
É já no século XIV que Dobb demarca os registros sobre o processo de desapossamento, além dos servos agrícolas, dos mineiros por parte dos capitalistas que se assenhoreavam dos negócios do metal, de forma que foram reduzindo-se a assalariados pobres. Os detalhes dessa redução se estendem até o século XVI, quando a dependência do assalariado , antes mineiro autônomo, se completa ao ponto de se verem como meros comissionados de uma porcentagem mísera sobre o metal extraído.
Ora, acrescenta Dobb, "quando a oferta de mão-de-obra para qualquer empreendimento novo, mesmo sob tais condições [de indução forçada], não se mostrava abundante, como na mineração, por exemplo, não era incomum que a Coroa concedesse o direito do recrutamento forçado ao empresário ou requeresse que sentenciados fossem mandados para o trabalho, sob pena de enforcamento caso se mostrassem refratários ou fugissem" (p. 236). Assim, "A legislação Tudor providenciava trabalho compulsório para os desempregados, e tornava o desemprego uma infração punível com brutalidade característica."
Como vimos, o status de desempregado não decorre de forma alguma de aumento populacional ou de fatores fortuitos, mas da pressão no sentido de liberar mão de obra a se tornar dependente das ordens dos capitalistas, além de paga da pior forma possível, assim como de colonizados escravizados.
Com efeito, há vários aspectos do grande empreendimento capitalista que demonstram com certeza que ele não é por si só mais lucrativo do que a exploração agrícola ou a livre pequena empresa, mas que é só pela disponibilidade de uma população reduzida ao máximo da capacidade de ser explorada, que as vantagens se tornam compensadoras.
Um exemplo disso é a alta de preços na Europa no decorrer do século XVI, devido ao incremento dos metais preciosos oriundos do continente americano. Hume e outros explicaram que essa alta na verdade era fictícia, pois se as mercadorias estão caras, o dinheiro está abundante e isso equivale à mesma proporção dos valores antes praticados - Foucault se deteve especialmente nisso, escrevendo sobre o "mercantilismo".
Mas conforme Dobb, o que a história registra inversamente, conforme a expressão de Keynes, é uma "inflação de lucros" responsável pelos "anos dourados" quando "nasceu o moderno capitalismo" e como " a fonte e a origem do investimento britânico no exterior". Dobb o explica do seguinte modo: "Na medida em que os salários em dinheiro deixavam de subir enquanto subia o nível de preços das mercadorias, todos os empregadores e donos de capital enriqueciam anormalmente à custa do padrão de vida da classe trabalhadora".
Assim, a ovinocultura dos "cercamentos" salvou alguns dos antigos proprietários de terras que conseguiram não perdê-las mesmo em meio à generalizada ação ilícita dos grandes negociantes, e em todo caso beneficiou todos os novos grandes proprietários, enquanto por outro lado, aumentou de modo espantoso o número de pequenos lavradores e servos expulsos do campo, que dessa forma desocupados, integraram a multidão de mendigos como fenômeno noticiado daquele século.
Na Espanha, por exemplo, onde o processo de desfeudalização pelos negociantes não havia ainda ocorrido, logo, onde não houve o desapossamento da mão-de-obra, os salários não baixaram, enquanto na França e na Inglaterra começa o capitalismo característico, acumulação monetária que vai culminar na Revolução Industrial. A inflação de lucros na Espanha não alcançou, portanto, um patamar importante e em vez disso, declinou com o tempo: "No ano da Invencível Armada, a Inflação de lucros de Filipe se concluía, e a de Elisabete começava".
Na Dinamarca e na Suécia, esse processo de tipo inglês se inicia só no final do século XVIII, enquanto a Alemanha agindo paralelamente à França, isto é, atuando desde cedo no sentido da formação capitalística, não foi tão ligeira e contínua nos procedimentos quanto a Inglaterra. Em geral o cômputo continental de formação do proletariado atravessa todo o período pós-feudal até as especificidades do processo quando da plena vigência da Revolução Industrial.
O essencial aqui ao ver de Dobb é algo que o próprio Weber havia salientado, a saber, a dependência dos resultados de um influxo de metal precioso quanto à natureza dos sistemas de trabalho. Mas obviamente a recíproca é verdadeira, e sem a exploração colonial o poderio necessário para uma operação de Dominação social dessa magnitude não seria pensável.
Conforme Dobb, a inflação de lucros na Inglaterra é resultado dos processos que fizeram dessa era, pelo excedente de mão de obra, a era "do 'mendigo robusto', do vagabundo e do destituído, a quem uma legislação selvagem condenava ao enforcamento público ou à marcação pelo ferro em brasa".
O aspecto não de todo racional do processo me parece então estar subentendido, desde que por um lado trata-se de extermínio sádico, por outro lado tratando-se da máxima necessidade reportada do mesmo elemento, o pobre ou desocupado forçado a tal, para fins de mão de obra. Assim o registro por Dobb do discurso de Cecil (1597), parece não-racional se a motivação subjacente é apenas a utilização da mão de obra: "Se os pobres forem expulsos de suas casas e se mudarem para morar com outros, logo os pegamos com o Estatuto dos Residentes; se saírem vagando, estarão, de acordo com o Estatuto dos Pobres, sujeitos ao chicote", quanto ao primeiro tratando-se da proibição de moradias de coletividades mistas na categoria de jornaleiro ("diaristas").
E quanto ao status de “vagabundo”, Dobb registrou uma obra de 1653, onde se tratavam de "vadios" aqueles "que em geral não trabalham, a não ser quando recebem os salários excessivos que desejam". Por “excessivos” no entender da classe beneficiada, devemos necessariamente entender o mínimo respeitável, pelo que estamos vendo.
De fato, a oposição de Foucault entre proletariado e marginalizados na base de que uns trabalham e outros não, é deficiente, porque o lumpesinato evidentemente só sobrevive de trabalho, não tendo renda própria, mas esse trabalho, o "biscate" ou "bico", não tendo o amparo de lei que o proletariado veio a conquistar pelo seu ingresso nas formas organizadas da produção. "Os Vagagundos", de Gorki, de fato versa sobre esse tipo de trabalhador não oficializado, e dizem que foi Gorki um dos poucos escritores que Stalin admirava.
A teoria feminista tem insistido que o trabalho feminino, integrado ao familiar na condição de esposa e/ou mãe, está nesse status absurdo de "não-trabalho", enquanto alguns já observaram que essa condição é atrelada a todos os que integram serviços reputados marginalmente. Como registrado de uma turma de trabalhadores braçais de estrada de ferro que, uma vez que o serviço foi acusado de ser meramente demagogia do governo por uma oposição corrupta de proprietários - passou a ser apontado pela população mistificada como "vagabundos", ainda que em pleno esforço braçal desse tipo de serviço extenuante.
Dobb demonstra que os efeitos desintegradores da formação da economia de mercado sobre a economia de pequenos produtores, não são só intensificados, mas se tornam irreparáveis quando o mercado dessa economia não é local mas atinge horizontes distantes, o que devemos entender ser o caso das potências coloniais.
Assim torna-se importante estudar a legislação dessa época, na Inglaterra especialmente, porque uma vez que expressa a alienação dos poderes pelos proprietários, ela não apenas implica a perseguição implacável aos forçados desocupados vagantes, quanto inclui na lista dos puníveis aqueles empregadores que não queriam levar a um nível tão escabroso a exploração - os que queriam pagar salários mais altos ou exigir menos esforço físico.
Legislação "combinando penalidades severas não só para qualquer tentativa concertada pelos trabalhadores e artífices para melhorar as condições do seu emprego, como também para a aceitação, por parte de qualquer trabalhador, de um salário maior do que o ordenado estatutariamente" (p. 234).
Assim, das leis estudas por Dobb, registro aqui a do Estatuto dos Artífices (séc. XVI), "que revigorava o controle dos salários, tornava compulsório o serviço agrícola para todas as pessoas não-empregadas de outra maneira e proibia aos servos abandonar sua cidade ou paróquia sem licença por escrito...", o que bem inversamente à burocracia racional weberiana, foi considerado "o instrumento mais poderoso já inventado para degradar e empobrecer o trabalhador inglês" (p. 235).
Essas penalidades , a serem aplicadas aos desocupados ("vagabundos"), como vimos apenas pessoas forçadas a essa condição pelos próprios capitalistas,  são impressionantes: em Londres, pela lei de 1524,
" 'deviam ser atados à cauda de uma carroça' e 'surrados pelos auxiliares do xerife com chicotes' e 'ter colares redondos de ferro afixados ao pescoço' ", conforme cita Dobb.
O estatuto de Eduardo VI decretava " 'ser marcado com ferro em brasa no peito' e 'considerado escravo por dois anos de qualquer pessoa que desse parte de tais ociosos', sendo o senhor autorizado a levar seu escravo ao trabalho 'por pancada, agrilhoamento ou de outra maneira, por mais vil que seja esse trabalho' " (p. 236, 37)."açoitamento, prisão e deportação eram os castigos para as greves."
Na era elisabetana, a legislação determinava a punição da mendicância pela "queimadura através da cartilagem do ouvido direito", com pena capital nos casos de reincidência, enquanto a lei de 1597 substituía tal penalidade "humanitariamente" pelo despir até a cintura com chicoteamento ao ensanguentar de todo o corpo.
Todo o pensamento da classe dominante da época era no sentido de evitar a prosperidade do pequeno lavrador no campo ou os salários não mantidos no mais baixo nível nos ofícios, além de eliminar ou internar "pelo 'sistema de hospícios' e casas de detenção", aos pobres quando se tratasse de evitar insubordinação (p. 237). Ou, como parece lógico, do mendigo potencialmente trabalhador ao desvairado impossibilitado de trabalhar, a distância podia ser medida apenas pelo grau de fome e desespero a que tais pessoas estavam expostas.
Quanto aos processos ilícitos de desapossamento de terras e assenhoramento de grandes territórios, Dobb os estuda no capítulo anterior a este referente ao "crescimento do proletariado". Tratando especificamente sobre "A acumulação do capital e o mercantilismo", Dobb acentua ao máximo a dependência do comércio exterior: "Desde os primeiros tempos em que a manufatura de lã se expandiu para além dos confins das guildas e da economia urbana, a principal indústria inglesa dependera em alto grau dos mercados de exportação". Isso de um ponto de vista intra-europeu, constituindo a Holanda e a Alemanha o escoamento importante da produção inglesa, enquanto o fator colonização integra a perspectiva voltada para o viés ilícito das transações ligadas à acumulação do capital pelos negociantes proto-"capitalistas" (="grandes industriais").
Dobb organiza em duas formas a acumulação assim designada proto-capitalista pois anterior à Revolução Industrial. A princípio há a ênfase na poupança em bens duráveis, cobrindo o processo de açambarcamento de terras "por conspiração e dolo", prejudicando como vimos os trabalhadores e não só os nobres. O arruinamento dos nobres se fez a partir de instrumentos de dívidas criadas pelos burgueses para extorquir-lhes as terras a partir de um sistema de empréstimos a que não resistiam a fim de manterem seus luxos: hipotecas e penhores, não só privados como estatais, com o tempo, "exercício de force majeure ou de trapaças jurídicas, ou ainda o emprego do favor e da influência políticos" no sentido de agregar propriedade fundiária, como até o confisco e venda das terras dos monarquistas sob o Commonwealth. Dobb acrescenta: "e no caso do comércio ultramarino, principalmente no comércio colonial, como veremos, muita tomada de propriedade pela força e simples pilhagem."
Mas logo depois há uma mudança na forma da ação dos negociantes, que passam a desprezar a poupança e insistir na compra e venda de propriedade a partir das condições de baixa e alta de preços. A primeira forma da acumulação é chamada de "aquisição", enquanto esta é designada "realização".
Nesse segundo caso, o essencial é "a intervenção de alguma circunstância suficientemente poderosa para fazer o valor da propriedade ou propriedades em questão subir entre dois períodos, a despeito da existência de toda uma classe de pessoas que se acham prontas a comprar aquela propriedade na primeira fase e a dispor dela na segunda".
Aqui é ressaltado que a variação de preços é na verdade necessário mesmo para a simples aquisição, pois "a tentativa de acumular mostrar-se-ia inócua" e até resultariam num decréscimo, se os valores não fossem progressivos, entre a fase de aquisição e de realização.
Uma circunstância assim seria por exemplo, tal que obrigasse os antigos donos a ter que vender imediatamente suas propriedades, o que se poderia obter por intervenção deliberada do governo.
Dobb nesse ponto é um marxista, ao salientar que somente a desintegração da ordem feudal atingir um estágio avançado é que se pode falar de capitalismo como modo de produção.
Mas todas essas condições da "acumulação primitiva", usando-se a expressão mesma de Marx - segundo Dobb, "um volume crescente de dívida estatal, empréstimos privados perdulários, ou condições favoráveis incomuns para compra de terra e uma tendência ao entesouramento do dinheiro (que tendia a manter elevada a taxa de juro)” - passam a exercer "uma influência retrógrada" quando se encontram em mãos dos negociantes os elementos que permitem converter o proto-capitalismo em sistema industrial, a saber: mão de obra abundante e barata, com uma reserva sempre disponível de desempregados; fontes estabilizadas de matérias primas; e maquinarias. Ou como em outro trecho, mão-de-obra, técnica produtiva e mercados.
Obviamente a ênfase no imperialismo como sinônimo de capitalismo pleno torna-se importante. Mas independente dos registros que poderíamos transpor do livro de Dobb quanto a essa questão de colonialismo-imperialismo, creio ser oportuno notar o "desenho" de sua exposição, porque ela vai desembocar num exame das condições do capitalismo do século XX - no entre guerras e depois das guerras - no fascismo, nazismo e nos Estados Unidos, que retomam precisamente esse item, da brutalização desumana do trabalhador.
Não obstante as diferenças quanto à ingenuidade foucaultiana a propósito da exclusão social como fato histórico, Dobb chega a uma conclusão parecida, a de que o capitalismo atual - isto é, planetarizado e já americanizado como o de hoje em dia, na expansão imperialista do capital central que conhecemos - reverte às formas de sadismo generalizado da época da "acumulação primitiva". Somente que Foucault exclui o elemento sádico de sua interpretação da prisão na “modernidade”, para interpretá-la como apenas um segmento a mais na engrenagem do controle, como se o capitalismo mesmo fosse apenas um desejo de dominar as mentes pela dulcificação dos corpos.
Um tanto além de Foucault, Dobb chega a pensar que de fato esse sadismo é repercussão, no pós-feudal, daquelas relações armadas que caracterizavam a (pseudo)-"legalidade" das interações da classe dominante na era feudal.
Poderíamos passar por alto esse item, apenas referenciando o fato histórico, mas não me parece recomendável agir desse modo, já que a descrição de Dobb, principalmente quanto aos Estados Unidos, lança o descrédito a todas as concepções que por falta dessa informação pensariam que a agressividade da geração insurgente nos sixties contra o capitalismo é algo exagerado, fortuito, ou então fruto irrefletido como reação à política externa da direita estadunidense nessa mesma época - como induzem a fazer crer, ora Marshal Berman, ora Richard Rorty.
Além disso, esse tema examinado na história econômica repercute consideravelmente na história da Sociologia.
Mais um motivo, é o seguinte. Dobb se expressa claramente a favor de Marx em muitos pontos, mas não me parece que seu livro conduza à conclusão habitual dos marxistas, a saber, que o desenvolvimento do capitalismo ocidental seja o requisito "dialético" do progresso dos direitos humanos e da emancipação.
Ele, é claro, reforça a ideia de que a classe trabalhadora tem atravessado todos os períodos de agressão e dominação pura e simples minuciosamente relatados, com uma vantagem no rumo de sua autoconsciência de classe e conquista progressiva de direitos pela sua organização política.
Mas de fato, quanto ao fator econômico - até pelo que é apresentado quanto à União Soviética -
parece-me nítido que a dedução óbvia do exposto é que só desfazendo os a prioris da mega-produção industrial, a prosperidade e segurança ética da população pode voltar a existir.
Isto é, destruindo o latifúndio no campo, assentando-se os pequenos lavradores, e acabando com todo o poderio do grande capital sobre a sociedade civil, na cidade, principalmente acabando com o poderio discursivo dos estereótipos do evolucionismo psico-social relativos a essa exploração brutal - minha posição quanto a isso é oposta totalmente ao imperialismo psíquico de Samir Thabet, instando este, a sério como programa nacionalista desenvolvimentista, nada menos de que se coíba o desenvolvimento normal das personalidades não afeitas à performance tecnológica das ciências exatas, através dos meios de comunicação em massa.
Essa concepção do desfazimento dos a prioris capitalistas, em vez de dialeticamente apostar neles para desenvolvimento futuro, que me parece corolário da exposição de Dobb, é inclusive tangenciada indiretamente quando se trata de salientar a importância da temática do terceiro mundo, o que fecha o desenvolvimento do livro. Examinando o tópico da brutalização do trabalhador paulatina à evolução do capitalismo na América, espero também referenciar mais minuciosamente esse tema do imperialismo, assim como é tratado por Dobb.
Está bastante óbvio que a despeito das distorções e mentiras que os latifundiários – postos pela "globalização" numa posição de vantagem local de que já haviam sido destituídos antes - tem propagado sobre a inviabilidade da reforma agrária e de um mercado interno, a escalada do capital central no terceiro mundo confirma que não há qualquer vislumbre de positividade local nessas condições, que o capitalismo não vai trazer "desenvolvimento", o que inclusive desde o Clube de Roma está expresso pelos próprios capitalistas euro-norte-americanos, devido ao fator ecológico.
Werneck Sodré (“Radiografia de um modelo”) já o constatava na época da ditadura, notando que se tornara evidente o fato de que a integração multinacional da economia local não agira como agente de modernização, pelo contrário, promovera o que se poderia conceituar uma feudalização pelo incremento radical da desigualdade social e inviabilização de meios para flexibilizar o potencial econômico nacional.
Além disso, políticos e jornalistas brasileiros tem mentido à população sobre o caráter da globalização, instando que se trata de algum imperativo mundial, para desenvolver-se, de abrir totalmente o país ao capital central - enquanto a verdade é que a União Europeia é um neoprotecionismo, como demonstrou Wilson Canno (“A nova des-ordem mundial”), e que o capital central se prova trazer somente miserabilização ao maior contingente populacional desde que não se trate de país "central", isto é, de potências sedes de multinacionais e detentores da reserva do Saber- nenhum dos americano-latinos é central assim como todos os países arrolados ao Sul da linha geopolítica que ora divide os hemisférios.
Vários países americano-latinos estão conscientes disso e tem evitado atrelar-se demasiado ao capital central, ao contrário do que a ganância deplorável de um baixíssimo nível de conscientização local tem disseminado como se nós não tivéssemos capacidades para detectar nesse marketing midiático nada mais do que balela.

        2) Aportes à Dominação na Contemporaneidade
A contradição do sistema capitalista, Dobb não conceitua nos termos estritamente marxistas da luta de classes - o fato de que a burguesia suscita necessariamente um proletariado que então vai se organizar para romper os laços do domínio burguês sobre si. Dobb a situa antes entre duas necessidades do capital em função do lucro.
Por um lado, a necessidade de expansão contínua do mercado, e por conseguinte, da consumação; por outro lado, para preservar ou aumentar o capital já investido, "tem-se de recorrer de quando em quando a medidas de restrição monopolistas", cujo efeito é impedir as possibilidades de nova expansão. Assim, "a própria depressão do padrão de vida das massas, condição para que o lucro seja ganho, estreita o mercado servido pela produção".
Falando sobre a acumulação primitiva ou sistema mercantil em termos de "período da adolescência do sistema" capitalista, Dobb faz notar que tratou-se de uma época em que essa contradição se traduzia pelo "conflito entre os interesses de uma geração mais velha de capitalistas, já entrincheirados em certas esferas de comércio e da usura, onde o capital penetrara primeiramente, e os interesses de uma nova geração que se tornara investidora em atividades ou indústrias novas, ou em novos métodos de produção."
Isso explicaria, segundo Dobb, por que parcelas mais antigas da burguesia se tornam rapidamente reacionárias e aliadas aos remanescentes feudais. Creio ser importante demarcar a periodização nesse ponto, porque já na época do capitalismo maduro, como acentuei algumas vezes, essa aliança de burguesia com senão propriamente a nobreza, os seus valores, é o que se verifica inversamente, protagonizada pelas gerações capitalistas subsequentes à da livre empresa - e ainda que em alguns países como a Alemanha do século XIX uma cisão muito acentuada de classe entre burguesia industrial-imperialista e aristocracia não seja especialmente significativa.
É com relação ao século XVII, pois, que Dobb acentua aquela forma como a presentificada pela contradição no tempo, quando se expressava entre os interesses dos mercadores proprietários de monopólios por cartas-patentes e o capital industrial nascente ou manufatura. Quanto ao século XIX, para Dobb a contradição vai se expressar como a oposição aos capitalistas ligados ao sistema mercantil protagonizada pelos capitalistas industriais.
Omite, pois, a configuração da livre empresa e economia clássica de Smith a Ricardo, no intervalo entre a Revolução francesa e a afirmação histórica do imperialismo industrial inglês na América Latina expressando-se entre o patrocínio ao império de Pedro I e a guerra do Paraguai até o conhecido dito de Say sobre ter vindo a ser o Brasil uma colônia inglesa. A omissão de Dobb é intencional, pois como ele registra, a seu ver não houve a sério "liberalismo" algum, nem mesmo na Inglaterra.
Werneck Sodré ("A história da burguesia brasileira") detém-se na expansão dos produtos e capitais ingleses no país, enquanto Pommer mostrou a transição do belo país "Guarani" de Solano Lopes a um Paraguai típico das distorções sociais e miserabilização decorrentes do dependentismo.
Recentemente constatei numa livraria estudos de pesquisadores brasileiros preocupados com a situação paraguaia, visado agora aquele país pelo que seria um expansionismo brasileiro em conexão ao capital internacional prototípico de tudo o que se faz aqui - o epíteto "sociedade tecnológica" tem feito, da ditadura à Globalização, realmente um grave prejuízo à concepção da nacionalidade autônoma e em cooperação com a autonomia dos povos, implementando ao invés um discurso arrogante de competitividade e "superioridade" que não se via praticado desde o elogio racista-positivista das "raças fortes destinadas ao domínio", como na praxe de Euclides da Cunha a Monteiro Lobato.
Nesse ponto, contudo, minha ênfase se coloca não tanto na especificação do panorama romântico ligado à livre empresa, antes do Realismo-Positivismo que expressa o novo capital industrial- imperialista tendo em Comte e Marx os seus teóricos principais, orientados por, ou ao menos coerentes com, a transformação objetivista sócio-darwinista dos conteúdos de humanities cujo refluxo sobre a teoria estritamente biológica de Darwin expressa-se em todas as concepções então disseminadas de que se tratava de luta pela vida e triunfo do mais forte.
Leroi-Ghouran registrou que uma antropologia física errada teve trânsito nessa época, com a hipótese então suposta exata, de uma raça de Canstadt que só se tornou desacreditada após grande acumulação de provas contrárias, porque, segundo Ghouran, tratou-se de uma teoria favorita. Creio que mais devido à acomodação dessa hipótese com a antropologia cultural dos Morgan e Frazer, antes da antropologia social decorrente dos trabalhos de campo e de Malinowski especialmente.
Pois a hipótese de Canstadt, ao que parece, caucionava a imagem de continuidade linear progressiva característica do cientificismo racista - imagem que não obstante os critérios positivistas manifestos, apenas prolonga o que a religiosidade do judeu-cristianismo sempre apregoou a propósito da raça escolhida. Há algumas semanas houve grande estardalhaço local pela reação das entidades civis devido à nomeação para chefiar a comissão de direitos humanos, de um homem que havia pouco antes declarado na imprensa que os negros são uma das raças inferiorizadas pela bíblia.
Minha ênfase se coloca, ao invés do período anterior ao racismo científico positivista, no fato de que quando se trata dos Estados Unidos, Dobb não persevera na diferenciação traçada entre gerações capitalísticas, e inversamente, após seu exame do desvanecimento do otimismo da produção devido à crise de 1929 a 1931, envereda pela utilização desse país para exemplificação privilegiada "dos poderes exercidos pelas grandes companhias no sentido de privar os trabalhadores de seus direitos de associação, reunião e opinião", inclusive, como após a aprovação da Lei de Relações do Trabalho (1935), "no sentido de frustrar os objetivos da legislação federal".
Portanto, a essa altura da história o Estado já não é mais confundível com os dispositivos de sua apropriação pelas classes exploradoras, e a autonomia do processo desta em relação ao da sociedade civil, ainda que interpenetrando-se variavelmente, se torna patente.
Até aqui, Dobb havia se concentrado no processo capitalístico pleno como determinando-se ora pela anormalidade do padrão de crescimento do mercado e tecnologia a partir do século XIX, ora pela enormidade da escalada da concentração do capital, tendência que fatores como a emergência das sociedades por ações de nenhuma forma teria contrariado. Em seguida, examina ele algumas singularidades dos países capitalistas totalitários, tema que retoma mais à frente.
Os Eua exemplificariam portanto o poder oriundo da concentração de capital em relação a qual Dobb afirma ser inteiramente exata a expressão "novo baronato", que segundo Henry Wallace estaria "usurpando a soberania do povo" e exercendo-se como protagonista dessa nossa nova era de "impérios econômicos", colocando a democracia no status de mero pró-forma na imanência de um todo outro teor social, no sentido da dominação.
Essa exemplificação devemos notar não ser fortuita, pois a crise da bolsa, como vários historiadores sublinharam, apenas assinalou para o mundo a realidade da hegemonia estadunidense - pois, propagando-se as "quebras" à Europa revelada assim dependente das finanças norte-americanas, e consequentemente aos países então satélites das potências julgadas europeias.
Nota Dobb, pois, ao se debruçar pela questão estadunidense, que "fora dos países fascistas, é nos Estados Unidos que se encontra evidenciação mais completa, nos tempos recentes", dos poderes oriundos da concentração do capital exercendo-se como dominação sobre a sociedade civil.
Dobb se utiliza amplamente para tal demonstração, do relatório da comissão de inquérito do Senado norte-americano, designada Comissão La Follete. Conforme Dobb os volumosos anais da comissão contam "uma história de sabor bem medieval, com seus bandos particulares de condottiere, sustentados pelas grandes companhias para uso contra seus próprios empregados, com a interpenetração do pessoal comercial e a administração pública local, com seus métodos mafiosos e o emprego da espionagem particular, suborno e brutalidade em escala impressionante" (p.353).
Sobre a família La Follete, ao que parece sendo a mesma do Wiscosin, é interessante notar que Rorty, contando sua própria história biográfica de participação na esquerda americana a partir da posição de sua própria família como tipicamente atuante, a cita para exemplificar o tipo de esquerda institucionalizada que sucedeu a esquerda ativista das décadas de dez e vinte, nos Eua.
De fato, quanto a esta esquerda ativista, a Escola de Chicago é nela protagonista com uma índole acentuada de anti-imperialismo e anti-racismo. Mas Rorty ("Achieving our country"), inversamente, está defendendo o anticomunismo, na base de que a esquerda institucionalizada havia sido marcada pelo trauma do stalinismo, dos processos de Moscou - e consequentemente da perseguição a Trotsky, o que Rorty ilustra indiretamente citando ativistas que nos Eua, como Whittaker Chambers, por terem rejeitado esse destino da revolução viviam no temor de estarem sendo igualmente perseguidos "pelos capangas de Stalin".
La Folette é então citado, pois sendo o apartamento de um dos membros da família assaltado, o de Suzanne, foram roubados na ocasião os arquivos da Comissão de Inquérito sobre os Processos de Moscou, que Dewey tinha a ela confiado. Rorty ajunta pois, que o roubo deve ter sido perpetrado "presumivelmente pelos agentes soviéticos".
De fato vários historiadores da Sociologia, como  o excelente texto de Marsal na "biblioteca Salvat", registram a transformação da disciplina, desde seus inícios com a Escola de Chicago de Park,  ao período subsequente em que Chicago se torna a meca do pragmatismo de Dewey. Nesse segundo cenário, há institucionalização devido a que o ativismo se neutraliza, e as tarefas se concentram na assimilação da teoria europeia junto à generalização das ideias pragmáticas que instilaram internacionalmente o que seria a pioneira filosofia genuinamente americana, o pragmatismo que hoje em dia tem em Rorty um dos mais proeminentes representantes.
Mas nesse caso o acontecimento que assinala a mudança não é apenas academização como no Brasil, porque se os Eua introduzem um dos pioneiros departamentos universitários de Sociologia, já isso ocorre como produção dos organizadores da Escola de Chicago, cujo mérito é o de generalizar pesquisas empíricas da realidade social - como a do gueto, dos imigrantes, etc. - e consolidar a ecologia urbana com uma teoria do padrão de mudança decorrente da ocupação das áreas centrais pelas firmas organizadas. Ou seja, foram feitas pesquisas da realidade de discriminação social, com finalidade de acabar com todo tipo de injustiça social naquele país.
Essa geração ativista, não obstante a organização universitária, é estritamente relacionada à imprensa de esquerda, então ferozmente voltada contra o neocolonialismo europeu e logo contra o racismo local, e publicação de livros de popularização das descobertas sociológicas julgadas de momentoso interesse politico.
A transformação na sociologia americana pode, então, mesmo não sendo concomitante à criação de departamentos, ser tipificada como de institucionalização acadêmica e consolidação de um parâmetro estritamente teórico a partir de um alinhamento euro-ocidentalizante que vai traduzir o que estava ocorrendo na época como consolidação da prevalência de um dos lados concorrentes da propaganda política do período anterior, que em vez do anti-imperialismo dos sociólogos e de grande parte da sociedade esclarecida, pregavam a entrada dos próprios Eua na corrida imperialista - fosse por argumentos racistas de superioridade étnica e por argumentos de superioridade religiosa (cristianismo), ou ainda econômica. Paralelamente o capital midiático iniciava sua trajetória de dominação total do mercado cultural, alinhado estritamente com tais elementos imperialistas. Trajetória que Cl. Julien ("L'empire americaine") expõe com rara clareza.
Rorty, cujo livro citado culmina num elogio à Universidade como instrumento de conscientização contra o que designa o sadismo americano que não chega, porém, a explicitar no que consiste além do problema do racismo e do machismo, não liga a princípio seu anticomunismo e apoio da política intervencionista americana a essa propaganda, mas o que se verifica historicamente como todos sabem é que ela integrou a retórica anticomunista como sua base mais firme de apoio argumentativo-propagandístico.
Além disso, o que Rorty não conta mas Claude Julien sim, é que a ação intervencionista norte-americana em todo o mundo teve como objetivo e resultado a substituição das potências europeias no posto de dominadoras das economias tornadas dependentes - como o Brasil e o Irã, entre os abundantes exemplos transcontinentais.
Os Eua não deixaram só por isso, de conservar a diferenciação nítida entre terceiro e primeiro mundos, pois tratou as empresas europeias deslocadas pelas suas numa base de participação nos lucros, ainda que em escala menor do que usufruíam antes, sendo que esses lucros eram em todo caso os hauridos pelo domínio absoluto sobre as economias do terceiro mundo, como exemplarmente o caso do petróleo iraniano, já relatado em Julien a propósito do episódio Mossadegh.

  Assim como o governo Goulart no Brasil,  Mossadegh do Irã, nos anos cinquenta,  era um governo totalmente representativo pelas vias legais do voto, ambos derrubados por generais da Cia agindo localmente a subversão da democracia, via suborno. A ação do general Haslocher no Brasil precedeu de três anos o golpe de 64, enquanto o general Shwartzkopf no Irã agiu do mesmo modo com considerável antecedência.

              Mas se no Brasil os ditadores militares instituídos pela Cia podem ser considerados nazistas apenas pelos métodos que utilizaram, Zahedi, o primeiro-ministro imposto pela Cia no Irã após derrubar Mossadegh, era um nazista notório, que participou da guerra mundial.

         A ação da Cia no Irã foi financiada pelas citadas multinacionais, que adiantaram um montante de milhões de dólares: Stantard Oil of Califórnia, Standard Oil of New Jersey, Texaco e Socony Vacuum Oil Cie, constituindo estas a associação designada  ARAMCO. Ficaram com a maior parte do percentual do negócio do petróleo iraniano que Mossadegh havia nacionalizado.  As empresas europeias que a ARAMCO beneficou para participarem do percentual foram: Anglo-Iranian oil company, Royal Dutch-Shell, Compagnie Française des Petroles. A Cia perdeu o controle do Irã quando ocorreu subsequentemente a revolução dos Aiatolás. Não há registro das fontes de subvenção ao golpe brasileiro, e na América Latina.
        
O estudo de Dobb sobre a atuação criminosa da firma americana contra o proletariado permite deduzir que o arrefecimento do ativismo nos Eua foi ainda decorrente de motivos de força.
Citando os registros da Comissão La Follette, não encarregada da questão stalinista, mas ao contrário, do problema trabalhista como num prolongamento do período ativista anterior, mostra Dobb que um dos eixos da ação anti-trabalhista das grandes firmas se irradiou da National Association of Manufactores (Associação Nacional de Manufaturas), uma federação de 200 associações de empregadores organizada em torno do objetivo de derrubar as metas da Lei de Relações do Trabalho então centradas na formação do direito legal de negociação por parte dos sindicatos trabalhistas.
Foi contra o sindicalismo organizado que toda a ação das firmas reunidas se fez sentir. A partir da tentativa de "deliberadamente sabotar a política nacional de trabalho e de negociação coletiva como a mesma era apresentada na Lei de Relações do Trabalho", conforme Dobb, o registro citado da comissão emenda que os membros da Associação "empenharam-se numa série de conspirações organizadas para destruir as liberdades civis dos trabalhadores... Fizeram aliança com a imprensa, polícia e funcionários de segurança locais. Por trás de sua política ilegal e anti-social, concentraram um poderio econômico e político que desafiava qualquer aplicação local da lei e do costume do país...".
O Relatório prossegue expressando-se em termos de uma "intervenção conspiratória organizada nas negociações coletivas" que "incluía a aplicação em massa dos dispositivos anti-sindicais comuns como a espionagem dos trabalhadores, o uso de furadores de greve, profissionais, munições industriais, a lista negra, a demissão discriminatória e uma série de armas semelhantes... Por trás desse vasto e poderoso movimento, estavam os líderes do comércio e da indústria, titulares reais, os grupos de banqueiros e financistas, líderes da imprensa local e até recentemente muitos dos funcionários públicos".
Esse relatório sendo sobre "Violations of Free Speech and Rights of Labor: Employers Associations and Colletive Bargaining in Califórnia", ficou claro que a Califórnia não estava sozinha mas exemplificava uma realidade deploravelmente tornada habitual nos demais estados norte-americanos.
Os atos centravam-se, segundo Dobb, em "ataques a indivíduos, espancamento e ferimentos à bala dos organizadores sindicais, dissolução de reuniões e manifestações, e destruição dos escritórios sindicais", além de "inserção de espiões em todo sindicato", com o intuito, além de espionar, de provocação e destruição, e o que se designou "espionagem às claras" consistindo em fazer-se seguir uma pessoa "durante todo o tempo e em todos os lugares de modo a intimidá-la".
Dobb salienta o uso dos sistemas de polícia particular - de modo que os policiais são clandestinamente contratados para trabalhos de segurança não previstos pela lei nem de responsabilidade da organização policial estatal. Além disso que resultou num corpo de guardas armados para serem usados contra grevistas, a comissão muito enfatizou a compra de munição pelas firmas - citadas a Republic Steel Corporation, a U.S Steel Corporation, a Carnegie's Bethlehem Steel e Goodyear Tyre Company. A Bethlehem Steel, devemos notar, é no Brasil o verdadeiro agente proprietário por trás do assim designado “grupo Antunes”, portanto capital estrangeiro que detém a maior parte dos direitos de exploração do quadrilátero ferrífero de Minas Gerais, conforme Werneck Sodré.
Essa munição detida pelas firmas norte-americanas, conforme Dobb, provou-se pelos trabalhos da Comissão, que nunca tiveram seu uso projetado a partir da suspeita de possibilidade de ataque das firmas por parte dos trabalhadores, pois "as quantidades prodigiosas de gás e equipamentos para gás, inclusive espingardas de gás e granadas de gás", sendo "inteiramente imprevisíveis para qualquer uso, a não ser no desencadeamento de ação ofensiva de caráter militar contra grandes aglomerações de gente", ostentavam a característica de que tinham o uso projetado para longo, não curto alcance.
Ou seja, toda a ação violenta era dirigida contra a multidão concebida apenas como de manifestantes grevistas pacíficos, fora dos limites da fábrica, e população porventura solidária.
Por outro lado jamais foi registrado vendas feitas aos sindicatos, enquanto "aproximadamente metade das vendas de armas destinados ao uso de gás lacrimogênio no país vai ter aos empregadores industriais" e "todo o curso da greve não exibe um só exemplo do uso de munições industriais para proteger as fábricas de invasão ou assalto".
A "usurpação privada da autoridade pública, corrupção de funcionários públicos, opressão de grandes grupos de cidadãos sob autoridade do Estado e perversão do governo representativo" foi testemunhada em conexão com o fato de que eram "homens com antecedentes criminais" que integravam as guardas particulares das companhias, além de que as turmas de fura-greves eram compostas de "um tipo especializado de rufiões... bem versados na violência e, às vezes, autênticos gangsters".
O conservantismo paranoico voltado contra os direitos da subjetividade, que o Only Yesterday de Lewis reportou dos USA de entre-guerras, encontra assim patamar de explicação considerável. Não se limita mais a um fenômeno inexplicável ocorrendo unicamente no plano dos costumes.
É impressionante saber que "numa cidade dominada pela Republic Steel, as liberdades civis e os direitos do trabalho foram suprimidos pela polícia da companhia. Os organizadores sindicais foram expulsos da cidade".
Em Harlan County, lojas e casas eram de propriedade da companhia tanto quanto as cadeias, e seus guardas que perseguiam os residentes da cidade e os líderes do sindicato local, eram "os únicos encarregados de fazer cumprir a lei".
Quadrilhas particulares de terroristas contratados pelas firmas atacavam os sindicatos por todo o país, atirando, raptando e assaltando nas estradas, em campo aberto e nos seus próprios lares, aos organizadores trabalhistas, chegando Dobb a falar de um "reinado do terror" dirigido "contra os trabalhadores que estavam simplesmente exercendo os direitos garantidos pela seção 7(a) da Lei de Recuperação Industrial Nacional."
A dedução de Dobb é de que "entre os métodos do fascismo e as polícias trabalhistas normais de poderosas organizações capitalistas, é difícil traçar uma linha divisória" (p. 356). Assim como é difícil traçar uma linha entre os métodos de ambos e o teor da acusação penal ao crime comum.
Na sociologia empírica, realmente essa linha entre o crime comum e a ação de instituições e membros supostamente representativos da sociedade capitalista foi apagada pelo que vemos das pesquisas reportadas por Bottomore ("Introdução à Sociologia"), como de Edwin Shuterland citada por Hermann Manheim, as quais revelaram que estatisticamente a protagonista da taxa de crimes nos Eua não eram os moradores dos guetos, nem jovens em situações específicas de solidão e desamparo, nem os negros, mas "algumas das mais poderosas empresas comerciais americanas" (p. 273).
Ora, retrocedendo ao exame do capitalismo totalitário na Europa, Dobb tangencia a questão colonial e por aí estende-se sua apreciação do problema do terceiro mundo, o que veremos subsequentemente.
"Colonialismo" em Dobb conceitua geralmente o correlato da Dit (divisão internacional do trabalho) típica de antes da "globalização", isto é, a defasagem econômica logo existente entre os fornecedores de matérias primas (margem) e os negociantes de produtos industrializados (Centro). Sendo esse o quadro que se estabeleceu primeiro entre as colônias e as metrópoles europeias que as anexaram pela força, depois entre países periféricos que vieram se tornar as ex-colônias, e os países centrais que antes eram suas metrópoles.
Assim pode-se falar até de um "colonialismo interno", conforme Dobb, quando num mesmo país constata-se a mesma defasagem entre uma região e outra.
O nazi-fascismo é exposto por Dobb como uma economia centrada na produção bélica, militar, que canaliza os esforços de todos os outros setores, sendo que a vantagem resultante é oriunda da conexão dessa capacidade militar com a política expansionista, de dominação imperialista.
É impressionante a proximidade dessa definição com o quadro do “complexo militar-industrial” estadunidense traçado por Cl. Julien, o alvo expansionista sendo a margem, o “terceiro mundo” (América centro-latina, Oriente Médio, Sudeste asiático, etc). No caso do nazismo alemão, contudo, o alvo imperialista da Alemanha era principalmente intra-europeu.
Dobb mostra que essa política continha alta dose de racismo, porque a dominação era pensada como estritamente vantajosa à economia alemã - tratava-se de praticamente subjugar as nações alvos não “germânicas”, como no caso da Polônia, cuja população os alemães queriam nada menos que expulsar, incorporando o território do país ao seu de modo a vir a ser habitado por uma população alemã, deixando um pouco da mão-de-obra polonesa apenas para formar "uma classe oprimida e empregada por baixos salários em ocupações não-qualificadas" (375).
O projeto para a Polônia seria apenas um vislumbre do tipo de imperialismo "mais avançado e mais predatório", mais impiedoso, intransigente e sistematicamente organizado que "seguiria em grande parte as linhas da economia da plantation, equipado com métodos técnicos modernos porém apoiado no trabalho de uma população colocada num nível mínimo de subsistência e consumo". Ou seja, precisamente o verificado no terceiro mundo desde o status colonial.
Essa mudança de orientação do alvo expansionista do capital para regiões intra-europeias na metade inicial do século passado se explica, para Dobb, como introdução pelo nazi-fascismo, de dois componentes com vistas a contornar o problema que àquela altura a dominação enfrentava. Quais sejam, o do desenvolvimento das forças produtivas e da maturidade política nas regiões coloniais. O que implicava que nelas estava em pleno curso os processos revolucionários de sua descolonização política e/ou econômica. Esses componentes sendo então a eleição de novos alvos a dominar e inovação técnica.
Dobb deve assim estar referenciando mais a América Latina, pois na África e partes da Ásia a anexação pela Europa estava ainda em processo, e só entre os anos cinquenta e setenta é que se verificou a ofensiva em prol da libertação nacional. Em todo caso, Dobb salienta com precisão a dependência dos quadros sócio-econômicos europeus tal como determinados pelo capitalismo e a dominação da margem, em vez de conceituáveis por alguma dinâmica interna.
É lugar comum a concepção historiadora a propósito das causas das duas guerras mundiais serem ligadas à competição das potências pelo domínio neocolonial, mas isso não impede habitualmente manter-se as perspectivas de explicação interna, como de Weber ou Marx.
Interessa-nos sobremodo aqui, portanto, dois fatores esclarecidos por Dobb: a política imperialista em relação à "colônia" e os recursos que nesta estavam sendo adotados para se libertar. Essa é a linha mestra da nossa “História do Brasil” traduzida em nosso esforço da industrialização nacional e os aparatos da força atuando, contrariamente a esse objetivo, o açambarcamento do potencial local pelas potências “centrais”. História familiar a tantos cenários, pró-forma, pós-coloniais.
O ônus da pressão imperialista para evitar o desenvolvimento industrial das colônias realmente obscurecia, segundo Dobb (p. 372), as vantagens dessas colônias como campo de investimento, pois o controle exercido para manter "a economia colonial tão complementar da economia da metrópole como, em séculos anteriores, o mercantilismo queria fazer", exigia demasiada soma de investimentos.
Aqui vem a tradução contemporânea da contradição do capitalismo já citada, pois tais exigências colocavam contraditoriamente por um lado o desejo de expandir o campo de investimento, e por outro o desejo de expandir o mercado para os produtos.
Por parte das ex-colônias agora subsumidas ao dependentismo que como vimos Dobb subscreve como situação do mesmo modo "colonial", nas décadas iniciais do século XX houve o que ele designa "nacionalismo colonial, embora figura nova, como personagem destacado no cenário histórico".
Já especifiquei repetidamente que de fato o século XIX inteiro é palco desse nacionalismo na América Latina pró-forma pós-colonial, mas o que Dobb está acentuando parece ser que agora a expressão da luta anticolonialista obtém um relevo incontornável. O objetivo nacionalista de "converter as regiões coloniais em unidades autônomas, no sentido econômico bem como no político, seguindo políticas de industrialização livres da influência do capital estrangeiro e recorrendo a tarifa autônoma e política financeira modeladas para esse fim", visaram estreitar sempre mais as oportunidades expansionistas do capital central.
Dobb especifica os recursos então adotados pelo que hoje designamos o “terceiro mundo” (nem primeiro central-capitalista, nem segundo comunista): "barreiras tarifárias dando preferência às indústrias nativas, o boicote dos produtos e modas estrangeiros, um movimento no sentido de uma política bancária autônoma e a retirada de privilégios políticos e econômicos especiais aos estrangeiros" (p. 373), de modo que tais políticas consolidando-se na China, Índia, Oriente Próximo e América Latina pressagiavam o que o continente africano poderia em seguida tentar fazer.
Como sabemos, o resultado da primeira guerra, determinada pela concorrência entre as potências imperialistas europeias, induziu à eclosão da segunda guerra com características distintas. Na verdade, como fator de eclosão da primeira guerra, temos que o poderio alemão perseguia interesses expansionistas além do continente europeu que coincidiam com os dos países liberais notadamente ingleses, como se torna conspícuo na saga militarista de Lawrence no Oriente Médio. O neocolonialismo como partilha afro-asiática pelas potências europeias estava sendo motivo de conflito.
Mas na segunda guerra as características diferem, em função do resultado da primeira ter suscitado condições de descontentamento social nos países germânicos vencidos, tão agudas que favoreceram a pregação do ódio agressivo totalitarista e o recurso racista de fazer dos "outros" raciais-comportamentais os bodes expiatórios ideais. Racismo belicista que até então não havia sido a dominante de partido, ainda que já presente como de resto em todo o continente europeu dessa época, devido ao citado acirramento da concorrência.
Assim se explica a histeria nazi-fascista institucionalizar-se nesse ínterim para vir a protagonizar um dos lados do conflito subsequente. Mas Dobb inova em relação a esse capítulo conhecido da História, ao focalizar a qualidade de investimento econômico envolvido.
A seu ver o estado de coisas consolidado após as duas guerras, não obstante ter eliminado o totalitarismo na Europa, fazia supor que o rumo do capitalismo futuro "terá por toda parte que passar para algum tipo de fase fascista" (p. 381).
Nesse estado de coisas, segundo ele, houve um progresso sem precedentes da organização trabalhista na Europa, o que podemos observar refletido na história da sociologia em termos da movimentação exemplificada na contribuição do casal Beatrice e Sidney Webb, somando esforços na pesquisa empírica para obter apoio factual quanto ao necessário a políticas reformistas visando incremento dos direitos civis. Ou seja, não tanto expressando o radicalismo anti-legalista de Sorel, cujo argumento era de que a democracia, por seu funcionamento burocrático, era apenas um meio do Poder de classe. Mas como é notório, a verve soreliana dessa época foi oportuna tanto a anarquistas, quanto a comunistas e fascistas.
Em todo caso, ao ver de Dobb, o progresso do trabalhismo foi paralelo ao surgimento de um capitalismo de Estado cujo ajuste ao monopolismo do capital atingira um patamar tal que a este permitia frear as inovações que lhe parecessem desvantajosas para o momento e em geral dirigir ao seu talante os rumos de mudança ou permanência de quaisquer fatores, menos o da organização social dos trabalhadores.
A propósito da concentração de capitais específica do pós-guerras, "A ditadura dos carteis", de Rudolf Mirow, é pertinente entre os inúmeros estudos que se interessam por esse monopolismo como traço mais conspícuo da história recente.
          Na verdade, a substituição da importância maior de políticos e governos pela figura do empresário multinacional é atestada desde os anos setenta, como por exemplo no artigo de Jameson que integra a coleção de textos selecionados por Heloisa Buarque intitulada "Pós-modernismo e política". Mas este texto de Jameson apenas demonstra que ele não compreendeu coisa alguma do que realmente estava acontecendo, em termos da evidenciação do capitalismo como dominação sobre o terceiro mundo. Como demonstrou Cl. Julien ("L'empire americaine") e vários economistas, está comprovado que o nível de potência desfrutado pelos USA são dependentes da exploração imperialista.
Mas o importante aos nossos propósitos é notar que nessa época os governos não-fascistas estão realmente comprometidos com a retórica anti-truste e socialmente reformista – como o clássico exemplo de Roosevelt. O que convém ao que vimos acima, pois o capitalismo, por mais incorporado que esteja ao Estado, não pode atuar por meio deste como nos séculos anteriores, ao menos em se tratando de política interna. A contradição aqui aparente se resolve, portanto. A incorporação Estado-capital nesse cenário de pensamento sócio-político esclarecido só pode ser retomado pelo ângulo da política externa (imperialismo). Foi desse trampolim que o capitalismo se reorganizou ao ponto da dominação massiva da atualidade.
O que induz ao corolário de que o neoliberalismo econômico em termos de doutrina da neutralização do Estado, e a autonomia do empresário como agente da dominação atual, não são fenômenos autônomos reais, mas reflexo do golpe de classe que reverteu o Estado em atuante da política externa – na acepção assim definida de imperialismo – como dominante ou dominado.
Um dos focos importantes do livro de David Halberstam ("The powers that be") está na evidenciação de que a trajetória do poder da mídia-imperialista-direitista nos USA é a história da atuação no sentido de neutralizar o legislativo, transformando o perfil do sistema governamental naquele país que tornou-se de preponderância da figura do presidente, o único personagem (carismático) , mistificado diretamente acessível ao público, pela rede midiática – isto é, sem a mediação democrática (racional) das instituições legislativas que representam a heterogeneidade da composição local.
Halberstam mostra inclusive a chantagem de Kyle Palmer, visando demover da intenção de candidatar-se a um político realmente representativo, pois Palmer se interessava por um outro candidato, passando a negar verbas à iniciativa contrária. Ele tinha portanto poder sobre a canalização das verbas que diretamente implicavam o resultado eleitoral. Como esse episódio, a guerra do Vietnã, a política estadunidense para a China e outras decisões históricas importantes são demonstradas como efeitos da imposição do capital midiático.
Todo o livro de Halberstam esclarece as ligações diretas dos políticos eleitos e linhas adotadas do governo com o controle exercido pelo capital midiático. Esse controle não foi exercido meramente por questões de acumulação do capital, mas principalmente essa acumulação refletiu os padrões tradicional-oligárquicos-cristãos das elites regionais.
Focaliza também por parte dessas mídias que protagonizam ainda hoje o mercado cultural, as operações de neutralização e ridicularização das composições democráticas, anti-racistas e trabalhistas. Antagonismo que como todos sabemos, explodiu de forma incontrolável no governo Nixon, caracterizado por um estado de contestação popular que beirou a guerra civil.
Sobre essas operações persecutórias das liberdades civis é importante salientar o que Halberstam testemunha como cotidiano da publicação midiática: o mais severo poder censório exercido por parte dos editores de jornais conforme diretrizes dos proprietários, poder que talvez nem mesmo os piores ditadores pretenderam, mas que instituiu um império de mentiras assim como Halberstam o documenta amplamente.
Além disso, documenta ainda a história das inserções de padrões de cena violentos, mentalidade competitiva, esquemas infantilizantes e de preconceito etário, na ordenação do espaço de comunicação televisivo. Essa linha de mídia estava sendo atacada, concomitante a publicações como a de Halberstam, pela imprensa internacional não necessariamente ligada aos grupos tradicionalistas-oligárquicos. A entrevista de Jacques Fauvet à editora Salvat, na época sendo ele diretor do Le Monde, demonstra que todos esses procedimentos eram criticados como “intoxicantes” por um movimento em prol da comunicação saudável que estava sendo organizado pelos profissionais de comunicação interessados na melhoria das instituições assim como das condições de sua atuação.
            Dobb pensa que a organização do trabalho que paralelamente evolvia, precipitaria uma sociedade igualitária e justa, ou então precipitará a pressão do capitalismo monopolista para forçar de novo o Estado a se por a seu serviço, solver o sindicalismo livre e agrilhoar o trabalho "com o braço da sanção legal", essa a hipótese que ele considera mais provável. Realmente a queda do muro de Berlim e a subsequente “globalização” confirma essa perspectiva.
            Não significa que em seu livro Dobb não deposite esperanças na ação organizada dos trabalhadores, mas ao que parece não crê que ela venha a ser logo exitosa, ou que não deva equacionar o radicalismo extremo da opção capitalística.
De fato Dobb não menciona que um dos principais traços dessa época foi a compulsão norte-americana sobre o terceiro mundo em função de uma política de transferência de capitais extremamente desvantajosa para este, estudada por exemplo por Romanova ("A expansão econômica dos Estados Unidos na América Latina"). A política de exportação de capitais antecedeu a exportação da própria unidade de produção que caracteriza a globalização.
Ou seja, primeiro o golpe militar foi dado para evitar que nossa industrialização fosse feita sem importação de capitais – que Romanova mostrou como operava por meios fraudulentamente abusivos. Mas na “redemocratização” a industrialização estatal, dos setores estratégicos, assim obtida mesmo num panorama de geral banditismo governamental contra o capital privado nacional, para privilégio da penetração estrangeira, foi desmantelada para substituição pelo capital multinacional.
No cenário antecedente, ainda ditatorial, a política de ajudas e empréstimos com finalidade declarada de fomentar o desenvolvimento local na verdade se revelou uma armadilha para as economias recebedoras, porquanto a flutuação dos juros é planejada de tal modo que se torna incontrolável e as condições do empréstimo são feitas para que praticamente a economia recebedora acabe pagando de início o montante na totalidade, ficando ainda assim comprometida com uma dívida gigantesca gerada somente por essas condições contratuais absurdas.
Em contrapartida essas economias recebedoras, notadamente americano-latinas, eram obrigadas a submeter-se cabalmente ao controle e diretrizes da nação emprestadora, os Eua. Por exemplo, esta devia ser informada de todos os pormenores do planejamento governamental local, de todas as características do território, população, etc.
Como essa fase foi rapidamente compensada aqui pelo acirramento da mentalidade e políticas nacionalistas, de repúdio a tais alinhamentos econômicos prejudiciais, desencadeou-se a prática do intervencionismo perpetrado para-legalmente pelos serviços secretos, para tais fins sendo encarregados altos funcionários da Cia – documentadamente tanto no Irã quanto no Brasil. O Estado de terror implementado é sobejamente conhecido.
Dobb, pronunciando-se antes do equacionamento desses acontecimentos, supõe que os acontecimentos mais importantes no pós-guerras foram a consolidação do mundo socialista além do capitalista e "o número crescente de antigos países coloniais que surgem como países mais ou menos independentes", não alinhados a qualquer dos dois lados mencionados, a essa altura em plena "guerra fria", isto é, a disputa dos dois lados por áreas de influência sob a égide de União Soviética comunista à Leste ou Estados Unidos capitalista à Oeste.
A política soviética revelou-se contudo de imperialismo no seu próprio domínio e o stalinismo tem sua própria história repressiva que no entanto foi explorada de modo não científico mas propagandístico pelo Ocidente. A queda do muro de Berlim, expressando a reunificação da Europa antes dividida em Leste e Oeste, e a superação da União Soviética precipitou o novo mapa geopolítico, interpretado propriamente como conflito Norte-Sul – dos países centrais e periféricos (margem). Isso ocorre juntamente com a mudança na economia industrial (Globalização).
Todo esse cenário de intensa transformação na transição ao século XXI está por ser conceituado, e seja como for que se o faça creio que a reordenação do próprio Capitalismo como Assimetria Internacional (Imperialismo) em vez de processo de classes local se tornou axiomático, importando revisão dos fatores histórico-discursivos coordenados ao pensamento eurocêntrico (“Modernidade”).
Quanto à questão da racionalidade ligada à consolidação do capitalismo, Dobb não pensa que se comprove, antes das duas guerras, algum padrão relevante de bem estar social, digamos, pelo trabalho. Estende sempre as condições adversas do controle do capitalismo sobre os trabalhadores, que vimos típica seja do Sistema Mercantil, seja do capital norte-americano, também à Europa.
Estuda paralelamente aos esforços para controlar o mundo colonizado que fizeram na Inglaterra "o Governo e a iniciativa privada muitas vezes se tornarem partes de um só mecanismo" (p. 352), assim como no caso da França, a diplomacia atuar "em meia dúzia de capitais".
Paralelamente constata que "é no seu trato com o trabalho, entretanto, que esse regimento monstruoso do poder econômico concentrado se mostra mais evidente, surgindo muitas vezes como um domínio que opera não através, mas independentemente, da maquinaria governamental".
Assim, falando sobre a Grã-Bretanha dos tempos iniciais do sindicalismo, "mesmo que na época isso fosse aceito como parte de uma ordem de coisas tradicional e santificada de modo a despertar poucos comentários", impressiona o que se sabe "das tiranias da oficina tommy-shop
[onde se trabalhava por artigos, em vez de por salários], da casa possuída pelo empregador e da expulsão de empregados que fizessem coisas desagradáveis para seus patrões, do poder destes para perseguir um trabalhador por causa de opiniões manifestadas por este ou de suas atividades, para privá-lo de emprego e pô-lo na lista negra entre os demais empregadores; do preconceito tanto da lei quanto de sua interpretação pelo magistrado local, que por muito tempo virtualmente privou a classe trabalhadora do direito de associação e reunião política independente".
Sobre isso, "A história da Riqueza do Homem", de Leo Hubberman, consegue ser até mais contundente, assim como mais minucioso quanto a documentação a propósito do envolvimento governamental dos países imperialistas nas transações de força e de diplomacia de que resultou a partilha afro-asiática e a princípio, o trânsito do controle econômico da América Latina da Inglaterra para os Eua.
Mas como tenho insistido, o aspecto para-legal como atuação dos serviços secretos, só vem a ser estudado em Claude Julien como a opção estadunidense desde a década de cinquenta, assim como por René Dreyfuss em se tratando do golpe americano-latino especialmente brasileiro, devendo-se ajuntar mais estudos de pesquisadores nessa linha.
Eu não creio que haja qualquer vantagem em abstrair os horrores da ditadura americano-latina, relatados em livros como o de Frei Beto ("Batismo de sangue"), sobre seu ativismo, junto com o infelicitado frei Tito de Alencar, e o caráter hediondo da perseguição política que sofreram, sendo ainda muito explícito sobre os métodos da ditadura e casos mais conspícuo das vítimas, além de mencionar o panorama dos grupos ativistas da época.
Ou "O que é isso companheiro", de Gabeira, além da informação dos manuais de história como o já citado História 2, da editora Lê. De fato, tem havido uma censura sub-reptícia sobre esse tema, e o próprio cômputo do que houve, assim como das vítimas, é difícil em toda a América Latina  por ter sido organizado por militares e serviços secretos, censura ambiguamente paralela ao que já mencionei em termos de um novo aparato discursivo de valorização da hediondez praticada em favor do capitalismo por governos de forma nenhum representativos da mentalidade local à exceção da casta minoritária que assim se põe na condição de mero Alter-Ego de um Centro neurotizado, pois fator de identidade do Ego/Sujeito da História reduzida à mistificação da racionalidade (“desenvolvimento” =capitalismo).
Outro problema, que não compacta necessariamente a abstração dessa temática, é o lançamento de hipóteses como a expressa na ficção realista de Paulo Francis sobre essa época, especialmente "Cabeça de negro", onde se propõe que a luta armada - não o que expressa a totalidade das opões políticas ativistas, mas especificamente o que foi suscitado como reação minoritária pelo "golpe dentro do golpe," em 1968 - foi na verdade ocultamente financiada e organizada pela direita a fim de propiciar argumento para continuar e até acirrar a perseguição.
Não disponho de documentação suficiente para analisar a hipótese, mas devemos lembrar, primeiro, que a opção pela luta armada não é expressiva da maior parte da esquerda mesmo perseguida, como se nota pelos comentários de Werneck Sodré; e também o escândalo suscitado em 1979, por causa da bomba que de fato explodiu no colo de um militar, quando se encaminhava este para lançá-la num show de música popular no Riocentro. Como depois constatado e provado, a ação desse militar fôra comandada a fim de lançar a culpa da bomba na esquerda e reiniciar uma fase de perseguições. Todo o discurso pseudo-legitimante do golpe se fez sobre essa mentira da existência de uma esquerda armada local.
A essa altura porém, do caso da bomba bem após 68, a esquerda sobrevivente dos grupos de extermínio e tortura estava exilada na Europa ou nos Eua, como Gabeira, e não havia qualquer indício de oposição séria ao regime ditatorial.
Essa esquerda pôde retornar ao país com a anistia política, na redemocratização, o que também significou impedir processos futuros contra os seus perseguidores comissionados pelo Estado ditatorial.
Essa foi a condição da "anistia", o que me parece contudo um grande erro político aceitar-se, ainda que na época possa ter semelhado o sine qua non do retorno de alguma sanidade política. Hoje em dia, há quem na imprensa se orgulhe de ter cometido crimes hediondos como funcionário dos militares, jactando-se de ter evitado o comunismo, quando na verdade Jango era um governo democrático e representativo - um dos mais votados políticos de toda a história do país -e não há sério indício de nenhuma revolução em marcha na época de precipitação do golpe.
A meu ver, a abstração do tema da hediondez praticada significa apenas o desprezo pela pessoa humana do americano-latino, o que se pode esperar pelas expectativas da Geoegologia (dominação falsamente "evolucionista") e um Nuremberg local seria necessário para reverter tal condição de desprezo manifesto.

       É espantoso como os horrores dos nazistas contra suas vítimas seja algo tão devidamente salientado, mas as práticas ainda piores verificadas na ditadura recente contra o americano-latino simplesmente seja algo com que se lide internacionalmente como aquilo de que não é necessário falar.

           Apesar de ser tão conhecido, creio ser oportuno registrar que o nazismo oficial, tanto quanto o fascismo, foi um terrorismo de estado praticado por países como Alemanha e Itália. Na Alemanha, etnias perseguidas como de judeus, ciganos, ou pessoas perseguidas por outros motivos, como ativistas políticos democratas ou socialistas, eram torturados barbaramente nos "campos de concentração", para onde eram mandados crianças, mulheres e todos os demais pertencentes à etnia, sofrendo todo tipo de barbarismo, sendo eliminados em massa nas câmeras de gás. No Brasil e América Latina das ditaduras recentes, o mesmo foi feito, sem porém os campos de concentração, contra centenas de milhares perseguidos pelo regime, especialmente os representantes da inteligência nacional (profissionais liberais).
Que é necessário reordenar o pensamento político em função dessa realidade histórica torna-se evidente se por ela nós devemos entender além das práticas do terror capitalista, a ordenação discursiva da anulação de qualquer representação de um Sujeito não-moderno-ocidental. Assim compreendemos o porque dessa temática se revelar um elemento antinazista no âmbito internacional recente, de recrudescimento das mentalidades abusivas totalitárias.
Não suponho, porém, que seja exequível no contexto presente, onde o que se tem no país é expressão dessas mentalidades junto à desnacionalização como fator de manifesta inferiorização da população local. A “polonização” do brasileiro, para usar o que vimos com Dobb, está patente numa política insana.
Deveríamos ao menos providenciar um monumento de memória das vítimas conhecidas, pois militavam em frentes muito variadas – como nas Juventudes Católica da época, (Jec e Juc dos "freis" em prol da filosofia de Teilhard de Chardin) - objetivando uma sociedade mais justa. Não esposo tal filosofia, mas o ressalvo para mostrar o quão incoativo a um stalinismo radical era o cenário político da época.
Esse monumento, contrariamente ao que o História 2 documentou como objetivo expresso dos ditadores na Argentina, típico dos demais países - fazer com que se esquecesse da atuação desses ativistas nacionalistas até então exercida.
O fato dos sobreviventes, prosseguindo na sua produção intelectual e/ou atuação política poderem ostentar rupturas com relações aos investimentos que foram os seus naquela época, evidentemente é tema que não interfere com a consideração acima.
Também não significa a fantasia de atribuir um nível tão profundo do conflito social somente à ditadura e sua motivação econômica, numa época como a atual, onde a tecnologia dos implantes trouxe o terror para o cotidiano, a partir da generalização pela população até infantil, do rapto e da mera utilização comercial dos corpos; a repressão atinge protestos de ecologistas que se somam na ordem da simples sobrevivência da biosfera planetária bem como da melhoria dos níveis de vida num ambiente onde a deterioração das relações sociais tem sido dirigida por interesses os mais mesquinhos do capitalismo imperialista-info-midiático-multinacional; além do recrudescimento da violência urbana de que se tem diariamente notícia; e do fato de que no campo o latifúndio tem perpetuado os métodos da ditadura contra os ativistas que lá tentam minimizar as piores condições da exploração da população, agindo os latifundiários ainda geralmente com as mesmas prerrogativas de impunidade.
Mas somente implica notar que a solvência das temáticas históricas numa homogeneização radical tornaria impossível lidar com os problemas assim como eles se apresentam, sempre relativos a contextos específicos.
Não devemos deixar que se esvaia a consciência da nacionalidade apenas porque há níveis do conflito social que tendem a mundializar-se, pelo contrário, a coalescência do respeito às etnias e às nacionalidades como cenários constitucionais de ajuste histórico-político da heterogeneidade local, será um sinal de que os obstáculos psíquico/desejantes à redução dos conflitos contemporâneos estão sendo superados, o que é coerente aos princípios da Geoegologia - meu conceito do capitalismo como Assimetria Internacional e Dominação Cultural-eurocêntrica.
Retornando ao que víamos, não obstante a oportunidade dos demais autores considerados, Dobb é realmente importante na liberação de uma visão de conjunto do processo capitalístico, isento do a priori da "racionalidade" e especificando o caráter crucial que nele representa o colonialismo e o imperialismo, além da exploração sádica do trabalho.
Assim, devemos considerar seriamente sua previsão de que o capitalismo é incompatível com o desenvolvimento das liberdades civis e das conquistas de autonomia, seja das margens, seja dos trabalhadores, em função do modo como historicamente tem se afirmado a Globalização como divisão do mundo em dois hemisférios separados por uma linha de pobreza que traduz o fato de uma dominação sem precedentes do "Norte", as antigas metrópoles colonialistas, sobre o Sul, as ex-colônias. Num estudo mais recente sobre a globalização, Dreyfuss mostrou que uma mesma firma multinacional emprega na Europa, trabalhadores a quase vinte dólares por hora, enquanto no Sudeste asiático paga menos de um dólar por hora.
As condições de isenção de impostos, possibilidade de controle político, providência local da infraestrutura requerida, e garantias totais de submissão da população, costumam ser premissas da captação do "investimento" do capital internacional num país do terceiro mundo, no âmbito da "nova Dit" que implica a translação da própria indústria para os países periféricos, mas somente nessa base "complementar" como define o vocabulário econômico: de nenhuma forma nacional ou autônoma e atendendo aos interesses exclusivos da população local em vez de aos interesses exclusivos da multinacional e sua sede norte-americana ou europeia, em todo caso Central nessa acepção de assimétrica ao cenário que explora.
Seria ainda oportuno mencionar algo dos estudos sociológicos que desde a guerra fria vem se acumulando na evidenciação das mudanças sociais correlatas à progressiva consolidação do monopolismo que hoje conhecemos como o capitalismo multinacional.
Uma das facetas importantes é a que salientou David Riesman. O caráter da exploração trabalhista resvalou para a sedimentação de uma extratificação severa de status, em vez de classes econômicas, tão logo a organização dos trabalhadores implementou níveis de vida melhores ao proletariado.
Dobb na verdade rechaça que tenha havido algum "aburguesamento" do proletariado, "com suas casas próprias e jardins, aparelhos de rádio e mobília comprada a prazo", que viria a configurar no século XX algum fenômeno "jamais previsto por Marx", de modo que para Dobb "parece restar pouca base para questionar o caráter esmagadoramente proletário da sociedade atual na Grã-Bretanha - a menos que esse caráter seja questionado por quem identifica o proletariado ao lumpen-proletariado e por aqueles que supõem ser o status de classe de um assalariado imediatamente modificado se suas roupas não estiverem poídas, se conseguir uma ou duas libras por ano em juros sobre bônus, ou se colher batatas num pequeno terreno" (p. 349).
Em todo caso, há muita gente tão preconceituosa que parece considerar seriamente essa modificação, e conforme Riesman e outros compreenderam à medida que foi se consolidando a noção de sociedade de massas, e de consumação em massa, na "era pop" os padrões de mercatorização se alteraram tanto que ou se devia acreditar ter atingido uma sociedade igualitarista, ou então novos dispositivos de extratificação deviam ter se introduzido. É claro que este segundo modo é o verdadeiro.
           A história do neoliberalismo econômico, dos anos oitenta até hoje, é a de uma crescente intervenção em todas as formas de expressão, intervenção patrocinada pela dominação do Estado pelo capitalismo, bem ao contrário do Estado mínimo preconizado pela doutrina, de modo que hoje em dia, nada mais falso do que considerar ter havido superação dos mesmos problemas que vinham se acumulando ao longo do século vinte. 
             A recusa a todos os tipos de cooptação "identitária" pela mídia; o repúdio ao sócio-apartheidismo generalizado, com denúncia dos casos de discriminação, exigindo que os culpados sejam presos ou paguem multa; a valorização da cultura popular heterogênea;  a expansão do mercado interno independente do domínio de multinacionais;  a participação, dentro da legalidade, em atos contrários aos abusos;  a expressão da crítica intelectual à dominação cultural e informática e principalmente contra todas as demonstrações de mentalidade sádica/preconceituosa; a publicação de estudos visando diagnóstico sobre os desvios mentais dessa mentalidade sádica; a exigência de regulação legal, visando os interesses da população, sobre produtos de comércio e indústria como o "computador pessoal"; a exigência das garantias da privacidade das pessoas físicas; são alguns dos meios pelos quais colaboramos para a superação do descalabro presente.
       As restantes mudanças estruturais necessárias são o que precisamos viabilizar a partir de estudos e propostas a serem apresentados para a superação das fraudes e distorções que impedem a democracia ser efetiva.
         Aprendemos nas guerras do século XX que o nazismo não se detém senão pelo enfrentamento da força, e na redefinição da história que este blog focaliza, aprendemos que o capitalismo atual não se diferencia do nazismo. Se puder ser evitada a confrontação em nível de guerra civil com objetivo de salvaguardar a qualidade de vida, é preciso aplicar os meios requeridos.

Nota: a "cultura popular" não é a "cultura de massas", mais conhecida como "mídia". A cultura de mídia é feita para ser dirigido ao povo, por grupos privados de "big business" ("capitalistas"); a cultura popular é heterogênea, feita pelo povo na acepção de população ela mesma heterogênea (não na acepção "identitária"). Aquilo que a mídia anda mostrando na Europa a partir da indústria fonográfica ou "sucessos" de televisão  não é necessariamente a cultura brasileira ou a que se produz do terceiro mundo.
        E devemos enfatizar, como o que esperamos ter ficado claro neste artigo, que "capitalismo" é diferente de "livre empresa" comercial ou industrial. O "capitalismo" implica dominação do mercado, monopólio contra a livre empresa e contra o Estado de direitos civis que com esta se coaduna. //===============






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