DENUNCIE O NEOFASCISMO BRASILEIRO que está ATUANDO NAS INSTITUIÇÕES DE ESTADO COMO RIO DE JANEIRO
A DITADURA CAPITALISTA - HISTÓRIA DA DOMINAÇÃO
Eliane Colchete
O Brasil "petista" é uma ditadura sem contestação a sério por parte da "comunidade internacional" que protagoniza atualmente a falácia do "mundo livre". Ou seja, sem contestação por parte dos agentes do Capitalismo Central, agentes da repressão às nações realmente livres, as quais só podem vir a ser pela construção da nacionalidade como ambiente da expressão cultural, econômica e existencial heterogênea local.
A causa, o IMPERIALISMO, é por DEMAIS conhecida, não obstante a limitação da educação no Brasil atual a igrejas e ideologias passadistas tornar o que é em todo mundo axiomático, um conteúdo praticamente revolucionário, de tão impraticado. Neste Blog, a História da Dominação se expõe, com interesse de desfazer qualquer suposição que ainda reste, do capitalismo como "progresso" humano e/ou político.
1) A
bandidagem
da firma capitalista: suas origens históricas, seu alcance
planetário
A
leitura de A
evolução do Capitalismo,
de Maurice Dobb, permite notar que nenhuma das formas conhecidas como "pós-estruturalistas", como as de Foucault e Deleuze-Guattari, é
adequada para tratar o período que construiu o capitalismo. Este período é o do escravismo colonial, quando começou o roubo dos territórios e povos da América Latina pelos capitalistas europeus, que na Europa estavam apenas numa fase adiantada de roubos e brutalidades contra a própria população. Maurice Dobb e Leo Hubberman tratam com informação real, e não mera especulação "conceitual", o que é o capitalismo nascente.
O processo
de formação capitalística tem sua mola na capacidade de
domínio sobre uma população redutível
a mão de obra farta, barata, sempre disponível, e nas falcatruas jurídicas pelas quais foi feita transferência de renda das famílias que não participavam dessa dominação , mas que tinham suas riquezas ligadas a formas de exploração mais antigas, para os capitalistas.
Ou seja, nem se trata do condão "aventureiro" de se fazer viagem, ao contrário do que pensava Deleuze, nem se trata de qualquer proeminência da figura do louco quanto ao processo de exclusão social em massa que acontecia então, ao contrário do que sugeriu Foucault.
Não
se esperou a Revolução Francesa ou Pinel, para de uma triagem do
contingente aprisionado fazer o louco destinado ao hospício e o
vagabundo destinado ao mercado de trabalho. Pelo contrário, ao
inverso do que parece pretender Foucault, desde o final do medievo é
desse mercado que se trata, como do desapossamento dos até aí
assentados pequenos proprietários, seja de sua parcela na gleba dos
servos, seja dos instrumentos da produção artesanal.
O estudo das formas
utilizadas em tal desapossamento, por M. Dobb ("A evolução do capitalismo") , extrapola em muito o
estereotipado item dos "cercamentos" já reportados por
Marx - o processo pelo qual os nobres ingleses proprietários de
terras teriam se convertido em proto-capitalistas e logo, em
burgueses, ao expulsar os servos dos seus campos para transformá-los
em pastagens de ovelhas cujo interesse estava no seu aproveitamento
na indústria têxtil. Tangencia-o, certamente, mas surpreende aos
que se cingem àquela descrição.
As operações de
interesse econômico realmente atravessam a história das
penalidades, mudando a imagem do processo para o de uma brutalidade
atroz, com grande ênfase no apartheid social generalizado.
Aqui
a "racionalidade" weberiana perde totalmente a pertinência,
pois em vez de algum processo de conversão religiosa à poupança
honesta e pessoal, o que se verifica é a profusão de medidas
governamentais amparando uma classe extremamente gananciosa de
capitalistas, agindo em conjunto na monopolização do Estado. Por um
lado açambarcavam as propriedades no campo pelos meios mais
ilícitos, para fazerem imensos domínios territoriais, por outro
lado pressionada em vários sentidos a população desapossada que
não tinha algum meio de compensar as perdas por influência social
de estamento como poderia ser o caso da nobreza quando era ela a
desapossada.
Por esse outro lado, a
questão não é mais observar como os meios ilícitos eram ao mesmo
tempo fartamente utilizados e tolerados pelas autoridades, uma vez
que resultavam no enriquecimento de grupos então tornados poderosos
de modo a influenciar a própria composição dos governos, mas sim
como foi o caso da distorção dos aparatos da legalidade.
As
vítimas do primeiro modo de ação ilícita por parte dos elementos
"burgueses" - não meramente a população moradora da
cidade ou plebeia, mas grupos de homens ricos especificamente
atuantes dessas transações de negócios geralmente amparados pelo
sistema do monopólio real - foram com efeito os nobres proprietários
de terras acomodados ao antigo sistema agrário, sem vínculo com o
novo mundo dos negócios. Mas as vítimas do segundo modo de ação
foram os pobres, que se tornaram objeto das mais cruéis torturas
não só permitidas pela legislação, mas propriamente prescritas
por ela. É claro que o aumento do número de pobres decorreu também
da concentração fundiária pela expulsão dos lavradores. Houve um
acréscimo de desapossados, não um aumento demográfico dos servos.
Os acontecimentos que
pontuam a trajetória dessa distorção do direito constituído não
esperam a época clássica, ainda que sejam diferenciáveis no tempo
pelas circunstâncias.
É já no século XIV que
Dobb demarca os registros sobre o processo de desapossamento, além
dos servos agrícolas, dos mineiros por parte dos capitalistas que se
assenhoreavam dos negócios do metal, de forma que foram reduzindo-se
a assalariados pobres. Os detalhes dessa redução se estendem até o
século XVI, quando a dependência do assalariado , antes mineiro
autônomo, se completa ao ponto de se verem como meros comissionados
de uma porcentagem mísera sobre o metal extraído.
Ora,
acrescenta Dobb,
"quando
a oferta de mão-de-obra para qualquer empreendimento novo, mesmo sob
tais condições [de indução forçada], não se mostrava abundante,
como na mineração, por exemplo, não era incomum que a Coroa
concedesse o direito do recrutamento forçado ao empresário ou
requeresse que sentenciados fossem mandados para o trabalho,
sob
pena de enforcamento caso se mostrassem refratários ou fugissem"
(p. 236).
Assim, "A
legislação Tudor providenciava trabalho compulsório para os
desempregados, e tornava o desemprego uma infração punível com
brutalidade característica."
Como vimos, o status de
desempregado não decorre de forma alguma de aumento populacional ou
de fatores fortuitos, mas da pressão no sentido de liberar mão de
obra a se tornar dependente das ordens dos capitalistas, além de
paga da pior forma possível, assim como de colonizados escravizados.
Com
efeito, há vários aspectos do grande empreendimento capitalista que
demonstram com certeza que ele não
é por si só mais lucrativo
do que a exploração agrícola ou a livre pequena empresa, mas que é
só pela disponibilidade de uma população reduzida
ao máximo da capacidade de ser explorada,
que as vantagens se tornam compensadoras.
Um exemplo disso é a
alta de preços na Europa no decorrer do século XVI, devido ao
incremento dos metais preciosos oriundos do continente americano.
Hume e outros explicaram que essa alta na verdade era fictícia, pois
se as mercadorias estão caras, o dinheiro está abundante e isso
equivale à mesma proporção dos valores antes praticados - Foucault
se deteve especialmente nisso, escrevendo sobre o "mercantilismo".
Mas
conforme Dobb, o que a história registra inversamente, conforme a
expressão de Keynes, é uma "inflação
de lucros"
responsável pelos "anos
dourados"
quando "nasceu
o moderno capitalismo"
e como "
a
fonte e a origem do investimento britânico no exterior".
Dobb o explica do seguinte modo: "Na
medida em que os salários em dinheiro deixavam de subir enquanto
subia o nível de preços das mercadorias, todos os empregadores e
donos de capital enriqueciam anormalmente à custa do padrão de vida
da classe trabalhadora".
Assim, a ovinocultura
dos "cercamentos" salvou alguns dos antigos proprietários
de terras que conseguiram não perdê-las mesmo em meio à
generalizada ação ilícita dos grandes negociantes, e em todo caso
beneficiou todos os novos grandes proprietários, enquanto por outro
lado, aumentou de modo espantoso o número de pequenos lavradores e
servos expulsos do campo, que dessa forma desocupados, integraram a
multidão de mendigos como fenômeno noticiado daquele século.
Na
Espanha, por exemplo, onde o processo de desfeudalização pelos
negociantes não havia ainda ocorrido, logo, onde não houve o
desapossamento da mão-de-obra, os salários não baixaram, enquanto
na França e na Inglaterra começa o capitalismo característico,
acumulação monetária que vai culminar na Revolução Industrial. A
inflação de lucros na Espanha não alcançou, portanto, um patamar
importante e em vez disso, declinou com o tempo: "No
ano da Invencível Armada, a Inflação de lucros de Filipe se
concluía, e a de Elisabete começava".
Na Dinamarca e na
Suécia, esse processo de tipo inglês se inicia só no final do
século XVIII, enquanto a Alemanha agindo paralelamente à França,
isto é, atuando desde cedo no sentido da formação capitalística,
não foi tão ligeira e contínua nos procedimentos quanto a
Inglaterra. Em geral o cômputo continental de formação do
proletariado atravessa todo o período pós-feudal até as
especificidades do processo quando da plena vigência da Revolução
Industrial.
O essencial aqui ao ver
de Dobb é algo que o próprio Weber havia salientado, a saber, a
dependência dos resultados de um influxo de metal precioso quanto à
natureza dos sistemas de trabalho. Mas obviamente a recíproca é
verdadeira, e sem a exploração colonial o poderio necessário para
uma operação de Dominação social dessa magnitude não seria
pensável.
Conforme
Dobb, a inflação de lucros na Inglaterra é resultado dos processos
que fizeram dessa era, pelo excedente de mão de obra, a era "do
'mendigo robusto', do vagabundo e do destituído, a quem uma
legislação selvagem condenava ao enforcamento público ou à
marcação pelo ferro em brasa".
O
aspecto não de todo racional do processo me parece então estar
subentendido, desde que por um lado trata-se de extermínio sádico,
por outro lado tratando-se da máxima necessidade reportada do mesmo
elemento, o pobre ou desocupado forçado a tal, para fins de mão de
obra. Assim o registro por Dobb do discurso de Cecil (1597), parece
não-racional se a motivação subjacente é apenas a utilização da
mão de obra: "Se
os pobres forem expulsos de suas casas e se mudarem para morar com
outros, logo os pegamos com o Estatuto dos Residentes; se saírem
vagando, estarão, de acordo com o Estatuto dos Pobres, sujeitos ao
chicote",
quanto ao primeiro tratando-se da proibição de moradias de
coletividades mistas na categoria de jornaleiro ("diaristas").
E
quanto ao status de “vagabundo”, Dobb registrou uma obra de 1653,
onde se tratavam de "vadios"
aqueles
"que
em geral não trabalham, a não ser quando recebem os salários
excessivos que desejam". Por
“excessivos” no entender da classe beneficiada, devemos
necessariamente entender o mínimo respeitável, pelo que estamos
vendo.
De
fato, a oposição de Foucault entre proletariado e marginalizados na
base de que uns trabalham e outros não, é deficiente, porque o
lumpesinato evidentemente só sobrevive de trabalho, não tendo renda
própria, mas esse trabalho, o "biscate" ou "bico",
não tendo o amparo de lei que o proletariado veio a conquistar pelo
seu ingresso nas formas organizadas da produção. "Os
Vagagundos",
de Gorki, de fato versa sobre esse tipo de trabalhador não
oficializado, e dizem que foi Gorki um dos poucos escritores que
Stalin admirava.
A teoria feminista tem
insistido que o trabalho feminino, integrado ao familiar na condição
de esposa e/ou mãe, está nesse status absurdo de "não-trabalho",
enquanto alguns já observaram que essa condição é atrelada a
todos os que integram serviços reputados marginalmente. Como
registrado de uma turma de trabalhadores braçais de estrada de ferro
que, uma vez que o serviço foi acusado de ser meramente demagogia do
governo por uma oposição corrupta de proprietários - passou a ser
apontado pela população mistificada como "vagabundos",
ainda que em pleno esforço braçal desse tipo de serviço
extenuante.
Dobb demonstra que os
efeitos desintegradores da formação da economia de mercado sobre a
economia de pequenos produtores, não são só intensificados, mas se
tornam irreparáveis quando o mercado dessa economia não é local
mas atinge horizontes distantes, o que devemos entender ser o caso
das potências coloniais.
Assim torna-se
importante estudar a legislação dessa época, na Inglaterra
especialmente, porque uma vez que expressa a alienação dos poderes
pelos proprietários, ela não apenas implica a perseguição
implacável aos forçados desocupados vagantes, quanto inclui na
lista dos puníveis aqueles empregadores que não queriam levar a um
nível tão escabroso a exploração - os que queriam pagar salários
mais altos ou exigir menos esforço físico.
Legislação
"combinando
penalidades severas não só para qualquer tentativa concertada pelos
trabalhadores e artífices para melhorar as condições do seu
emprego, como também para a aceitação, por parte de qualquer
trabalhador, de um salário maior do que o ordenado estatutariamente"
(p. 234).
Assim,
das leis estudas por Dobb, registro aqui a do Estatuto dos Artífices
(séc. XVI), "que
revigorava o controle dos salários, tornava compulsório o serviço
agrícola para todas as pessoas não-empregadas de outra maneira e
proibia aos servos abandonar sua cidade ou paróquia sem licença por
escrito...",
o que bem inversamente à burocracia
racional
weberiana, foi considerado "o
instrumento mais poderoso já inventado para degradar e empobrecer o
trabalhador inglês"
(p. 235).
Essas penalidades , a
serem aplicadas aos desocupados ("vagabundos"), como vimos apenas pessoas forçadas a essa condição pelos próprios capitalistas, são
impressionantes: em Londres, pela lei de 1524,
"
'deviam ser atados à cauda de uma carroça' e 'surrados pelos
auxiliares do xerife com chicotes' e 'ter colares redondos de ferro
afixados ao pescoço' ", conforme
cita Dobb.
O
estatuto de Eduardo VI decretava "
'ser
marcado com ferro em brasa no peito' e 'considerado escravo por dois
anos de qualquer pessoa que desse parte de tais ociosos', sendo o
senhor autorizado a levar seu escravo ao trabalho 'por pancada,
agrilhoamento ou de outra maneira, por mais vil que seja esse
trabalho' "
(p. 236, 37).
Já "açoitamento,
prisão e deportação eram os castigos para as greves."
Na
era elisabetana, a legislação determinava a punição da
mendicância pela "queimadura
através da cartilagem do ouvido direito",
com pena capital nos casos de reincidência, enquanto a lei de 1597
substituía tal penalidade "humanitariamente"
pelo despir até a cintura com chicoteamento ao ensanguentar de todo
o corpo.
Todo
o pensamento da classe dominante da época era no sentido de evitar a
prosperidade do pequeno lavrador no campo ou os salários não
mantidos no mais baixo nível nos ofícios, além de eliminar ou
internar
"pelo
'sistema de hospícios' e casas de detenção",
aos pobres quando se tratasse de evitar insubordinação (p. 237).
Ou, como parece lógico, do mendigo potencialmente trabalhador ao
desvairado impossibilitado de trabalhar, a distância podia ser
medida apenas pelo grau de fome e desespero a que tais pessoas
estavam expostas.
Quanto
aos processos ilícitos de desapossamento de terras e assenhoramento
de grandes territórios, Dobb os estuda no capítulo anterior a este
referente ao "crescimento
do proletariado". Tratando
especificamente sobre "A
acumulação do capital e o mercantilismo",
Dobb acentua ao máximo a dependência do comércio exterior:
"Desde
os primeiros tempos em que a manufatura de lã se expandiu para além
dos confins das guildas e da economia urbana, a principal indústria
inglesa dependera em alto grau dos mercados de exportação".
Isso de um ponto de vista intra-europeu, constituindo a Holanda e a
Alemanha o escoamento importante da produção inglesa, enquanto o
fator colonização integra a perspectiva voltada para o viés
ilícito das transações ligadas à acumulação do capital pelos
negociantes proto-"capitalistas" (="grandes
industriais").
Dobb
organiza em duas formas a acumulação assim designada
proto-capitalista pois anterior à Revolução Industrial. A
princípio há a ênfase na poupança em bens duráveis, cobrindo o
processo de açambarcamento de terras "por
conspiração e dolo",
prejudicando como vimos os trabalhadores e não só os nobres. O
arruinamento dos nobres se fez a partir de instrumentos de dívidas
criadas pelos burgueses para extorquir-lhes as terras a partir de um
sistema de empréstimos a que não resistiam a fim de manterem seus
luxos: hipotecas e penhores, não só privados como estatais, com o
tempo, "exercício
de force majeure ou de trapaças jurídicas, ou ainda o emprego do
favor e da influência políticos"
no
sentido de agregar propriedade fundiária, como até o confisco e
venda das terras dos monarquistas sob o Commonwealth.
Dobb acrescenta: "e
no caso do comércio ultramarino, principalmente no comércio
colonial, como veremos, muita tomada de propriedade pela força e
simples pilhagem."
Mas
logo depois há uma mudança na forma da ação dos negociantes, que
passam a desprezar a poupança e insistir na compra e venda de
propriedade a partir das condições de baixa e alta de preços. A
primeira forma da acumulação é chamada de "aquisição",
enquanto esta é designada "realização".
Nesse
segundo caso, o essencial é "a
intervenção de alguma circunstância suficientemente poderosa para
fazer o valor da propriedade ou propriedades em questão subir entre
dois períodos, a
despeito
da existência de toda uma classe de pessoas que se acham prontas a
comprar aquela propriedade na primeira fase e a dispor dela na
segunda".
Aqui
é ressaltado que a variação de preços é na verdade necessário
mesmo para a simples aquisição, pois "a
tentativa de acumular mostrar-se-ia inócua"
e até resultariam num decréscimo, se os valores não fossem
progressivos, entre a fase de aquisição e de realização.
Uma circunstância assim
seria por exemplo, tal que obrigasse os antigos donos a ter que
vender imediatamente suas propriedades, o que se poderia obter por
intervenção deliberada do governo.
Dobb
nesse ponto é um marxista, ao salientar que somente a desintegração
da ordem feudal atingir um estágio avançado é que se pode falar de
capitalismo como modo de produção.
Mas
todas essas condições da "acumulação
primitiva",
usando-se a expressão mesma de Marx - segundo Dobb, "um
volume crescente de dívida estatal, empréstimos privados
perdulários, ou condições favoráveis incomuns para compra de
terra e uma tendência ao entesouramento do dinheiro (que tendia a
manter elevada a taxa de juro)” -
passam
a exercer "uma
influência retrógrada"
quando se encontram em mãos dos negociantes os elementos que
permitem converter o proto-capitalismo em sistema industrial, a
saber: mão de obra abundante e barata, com uma reserva sempre
disponível de desempregados; fontes estabilizadas de matérias
primas; e maquinarias. Ou como em outro trecho, mão-de-obra,
técnica produtiva e mercados.
Obviamente
a ênfase no imperialismo como sinônimo de capitalismo pleno
torna-se importante. Mas independente dos registros que
poderíamos transpor do livro de Dobb quanto a essa questão de
colonialismo-imperialismo, creio ser oportuno notar o "desenho"
de sua exposição, porque ela vai desembocar num exame das condições
do capitalismo do século XX - no entre guerras e depois das guerras
- no fascismo, nazismo e nos Estados Unidos, que retomam
precisamente esse item, da brutalização desumana do trabalhador.
Não obstante as
diferenças quanto à ingenuidade foucaultiana a propósito da
exclusão social como fato histórico, Dobb chega a uma conclusão
parecida, a de que o capitalismo atual - isto é, planetarizado e já
americanizado como o de hoje em dia, na expansão imperialista do
capital central que conhecemos - reverte às formas de sadismo
generalizado da época da "acumulação primitiva". Somente
que Foucault exclui o elemento sádico de sua interpretação da
prisão na “modernidade”, para interpretá-la como apenas um
segmento a mais na engrenagem do controle, como se o capitalismo
mesmo fosse apenas um desejo de dominar as mentes pela dulcificação
dos corpos.
Um tanto além de
Foucault, Dobb chega a pensar que de fato esse sadismo é
repercussão, no pós-feudal, daquelas relações armadas que
caracterizavam a (pseudo)-"legalidade" das interações da
classe dominante na era feudal.
Poderíamos
passar por alto esse item, apenas referenciando o fato histórico,
mas não me parece recomendável agir desse modo, já que a descrição
de Dobb, principalmente quanto aos Estados Unidos, lança o
descrédito a todas as concepções que por falta dessa informação
pensariam que a agressividade da geração insurgente nos sixties
contra o capitalismo é algo exagerado, fortuito, ou então fruto
irrefletido como reação à política externa da direita
estadunidense nessa mesma época - como induzem a fazer crer, ora
Marshal Berman, ora Richard Rorty.
Além disso, esse tema
examinado na história econômica repercute consideravelmente na
história da Sociologia.
Mais
um motivo, é o seguinte. Dobb se expressa claramente a favor de Marx
em muitos pontos, mas não me parece que seu livro conduza à
conclusão habitual dos marxistas, a saber, que o desenvolvimento do
capitalismo ocidental seja o requisito "dialético" do
progresso dos direitos humanos e da emancipação.
Ele, é claro, reforça
a ideia de que a classe trabalhadora tem atravessado todos os
períodos de agressão e dominação pura e simples minuciosamente
relatados, com uma vantagem no rumo de sua autoconsciência de
classe e conquista progressiva de direitos pela sua organização
política.
Mas de fato, quanto ao
fator econômico - até pelo que é apresentado quanto à União
Soviética -
parece-me nítido que a dedução
óbvia do exposto é que só desfazendo os a prioris da mega-produção
industrial, a prosperidade e segurança ética da população pode
voltar a existir.
Isto
é, destruindo o latifúndio no campo, assentando-se os pequenos
lavradores, e acabando com todo o poderio do grande capital sobre a
sociedade civil, na cidade, principalmente acabando com o poderio
discursivo dos estereótipos do evolucionismo psico-social relativos
a essa exploração brutal - minha posição quanto a isso é oposta
totalmente ao imperialismo psíquico de Samir Thabet, instando este,
a sério como programa nacionalista desenvolvimentista, nada menos de
que se coíba
o desenvolvimento normal das personalidades não afeitas à
performance tecnológica das ciências exatas, através dos meios de
comunicação em massa.
Essa concepção do
desfazimento dos a prioris capitalistas, em vez de dialeticamente
apostar neles para desenvolvimento futuro, que me parece corolário
da exposição de Dobb, é inclusive tangenciada indiretamente quando
se trata de salientar a importância da temática do terceiro mundo,
o que fecha o desenvolvimento do livro. Examinando o tópico da
brutalização do trabalhador paulatina à evolução do capitalismo
na América, espero também referenciar mais minuciosamente esse
tema do imperialismo, assim como é tratado por Dobb.
Está
bastante óbvio que a despeito das distorções e mentiras que os
latifundiários – postos pela "globalização" numa
posição de vantagem local de que já haviam sido destituídos antes
- tem propagado sobre a inviabilidade da reforma agrária e de um
mercado interno, a escalada do capital central no terceiro mundo
confirma que não
há qualquer vislumbre de positividade local nessas condições, que
o capitalismo não vai trazer "desenvolvimento", o que
inclusive desde o Clube de Roma está expresso pelos próprios
capitalistas euro-norte-americanos, devido ao fator ecológico.
Werneck Sodré
(“Radiografia de um modelo”) já o constatava na época da
ditadura, notando que se tornara evidente o fato de que a integração
multinacional da economia local não agira como agente de
modernização, pelo contrário, promovera o que se poderia
conceituar uma feudalização pelo incremento radical da desigualdade
social e inviabilização de meios para flexibilizar o potencial
econômico nacional.
Além
disso, políticos e jornalistas brasileiros tem mentido
à população sobre o caráter da globalização, instando que se
trata de algum imperativo mundial, para desenvolver-se, de abrir
totalmente o país ao capital central - enquanto a verdade é que a
União Europeia é um neoprotecionismo, como demonstrou Wilson Canno
(“A nova des-ordem mundial”), e que o capital central se prova
trazer somente miserabilização ao maior contingente populacional
desde que não se trate de país "central", isto é, de
potências sedes de multinacionais e detentores da reserva do Saber-
nenhum dos americano-latinos é central assim como todos os países
arrolados ao Sul da linha geopolítica que ora divide os hemisférios.
Vários países
americano-latinos estão conscientes disso e tem evitado atrelar-se
demasiado ao capital central, ao contrário do que a ganância
deplorável de um baixíssimo nível de conscientização local tem
disseminado como se nós não tivéssemos capacidades para detectar
nesse marketing midiático nada mais do que balela.
2) Aportes à Dominação na
Contemporaneidade
A contradição do
sistema capitalista, Dobb não conceitua nos termos estritamente
marxistas da luta de classes - o fato de que a burguesia suscita
necessariamente um proletariado que então vai se organizar para
romper os laços do domínio burguês sobre si. Dobb a situa antes
entre duas necessidades do capital em função do lucro.
Por
um lado, a necessidade de expansão contínua do mercado, e por
conseguinte, da consumação; por outro lado, para preservar ou
aumentar o capital já investido, "tem-se
de recorrer de quando em quando a medidas de restrição
monopolistas",
cujo efeito é impedir as possibilidades de nova expansão. Assim, "a
própria depressão do padrão de vida das massas, condição para
que o lucro seja ganho, estreita o mercado servido pela produção".
Falando
sobre a acumulação primitiva ou sistema mercantil em termos de
"período
da adolescência do sistema"
capitalista,
Dobb faz notar que tratou-se de uma época em que essa contradição
se traduzia pelo "conflito
entre os interesses de uma geração mais velha de capitalistas, já
entrincheirados em certas esferas de comércio e da usura, onde o
capital penetrara primeiramente, e os interesses de uma nova geração
que se tornara investidora em atividades ou indústrias novas, ou em
novos métodos de produção."
Isso
explicaria, segundo Dobb, por que parcelas mais antigas da burguesia
se tornam rapidamente reacionárias e aliadas aos remanescentes
feudais. Creio ser importante demarcar a periodização nesse ponto,
porque já na época do capitalismo maduro, como acentuei algumas
vezes, essa aliança de burguesia com senão propriamente a nobreza,
os seus valores, é o que se verifica inversamente, protagonizada
pelas gerações capitalistas subsequentes
à da livre empresa - e ainda que em alguns países como a Alemanha
do século XIX uma cisão muito acentuada de classe entre burguesia
industrial-imperialista e aristocracia não seja especialmente
significativa.
É
com relação ao século XVII, pois, que Dobb acentua aquela forma
como a presentificada pela contradição no tempo, quando se
expressava entre os interesses dos mercadores proprietários de
monopólios por cartas-patentes e o capital industrial nascente ou
manufatura. Quanto ao século XIX, para Dobb a contradição vai se
expressar como a oposição aos capitalistas ligados ao sistema
mercantil protagonizada pelos capitalistas industriais.
Omite, pois, a configuração
da livre empresa e economia clássica de Smith a Ricardo, no
intervalo entre a Revolução francesa e a afirmação histórica do
imperialismo industrial inglês na América Latina expressando-se
entre o patrocínio ao império de Pedro I e a guerra do Paraguai até
o conhecido dito de Say sobre ter vindo a ser o Brasil uma colônia
inglesa. A omissão de Dobb é intencional, pois como ele registra, a seu ver não houve a sério "liberalismo" algum, nem mesmo na Inglaterra.
Werneck Sodré ("A
história da burguesia brasileira") detém-se na expansão dos
produtos e capitais ingleses no país, enquanto Pommer mostrou a
transição do belo país "Guarani" de Solano Lopes a um
Paraguai típico das distorções sociais e miserabilização
decorrentes do dependentismo.
Recentemente
constatei numa livraria estudos de pesquisadores brasileiros
preocupados com a situação paraguaia, visado agora aquele país
pelo que seria um expansionismo brasileiro em conexão ao capital
internacional prototípico de tudo o que se faz aqui - o epíteto
"sociedade tecnológica" tem feito, da ditadura à
Globalização, realmente um grave prejuízo à concepção da
nacionalidade autônoma e em cooperação com a autonomia dos povos,
implementando ao invés um discurso arrogante de competitividade e
"superioridade" que não se via praticado desde o elogio
racista-positivista das "raças
fortes destinadas ao domínio",
como na praxe de Euclides da Cunha a Monteiro Lobato.
Nesse
ponto, contudo, minha ênfase se coloca não tanto na especificação
do panorama romântico ligado à livre empresa, antes do
Realismo-Positivismo que expressa o novo capital industrial-
imperialista tendo em Comte e Marx os seus teóricos principais,
orientados por, ou ao menos coerentes com, a transformação
objetivista sócio-darwinista dos conteúdos de humanities cujo
refluxo sobre a teoria estritamente biológica de Darwin expressa-se
em todas as concepções então disseminadas de que se tratava de
luta pela vida e triunfo do mais forte.
Leroi-Ghouran
registrou que uma antropologia física errada teve trânsito nessa
época, com a hipótese então suposta exata, de uma raça de
Canstadt que só se tornou desacreditada após grande acumulação de
provas contrárias, porque, segundo Ghouran, tratou-se de uma teoria
favorita. Creio que mais devido à acomodação dessa hipótese com a
antropologia
cultural
dos Morgan e Frazer, antes da antropologia social
decorrente
dos trabalhos de campo e de Malinowski especialmente.
Pois a hipótese de
Canstadt, ao que parece, caucionava a imagem de continuidade linear
progressiva característica do cientificismo racista - imagem que não
obstante os critérios positivistas manifestos, apenas prolonga o que
a religiosidade do judeu-cristianismo sempre apregoou a propósito da
raça escolhida. Há algumas semanas houve grande estardalhaço local
pela reação das entidades civis devido à nomeação para chefiar a
comissão de direitos humanos, de um homem que havia pouco antes
declarado na imprensa que os negros são uma das raças
inferiorizadas pela bíblia.
Minha
ênfase se coloca, ao invés do período anterior ao racismo
científico positivista, no fato de que quando se trata dos Estados
Unidos, Dobb não persevera na diferenciação traçada entre
gerações capitalísticas, e inversamente, após seu exame do
desvanecimento do otimismo da produção devido à crise de 1929 a
1931, envereda pela utilização desse país para exemplificação
privilegiada "dos
poderes exercidos pelas grandes companhias no sentido de privar os
trabalhadores de seus direitos de associação, reunião e opinião",
inclusive, como após a aprovação da Lei de Relações do Trabalho
(1935), "no
sentido de frustrar os objetivos da legislação federal".
Portanto,
a essa altura da história o Estado já não é mais confundível com
os dispositivos de sua apropriação pelas classes exploradoras, e a
autonomia do processo desta em relação ao da sociedade civil, ainda
que interpenetrando-se variavelmente, se torna patente.
Até aqui, Dobb havia se
concentrado no processo capitalístico pleno como determinando-se ora
pela anormalidade do padrão de crescimento do mercado e tecnologia a
partir do século XIX, ora pela enormidade da escalada da
concentração do capital, tendência que fatores como a emergência
das sociedades por ações de nenhuma forma teria contrariado. Em
seguida, examina ele algumas singularidades dos países capitalistas
totalitários, tema que retoma mais à frente.
Os
Eua exemplificariam portanto o poder oriundo da concentração de
capital em relação a qual Dobb afirma ser inteiramente exata a
expressão "novo
baronato",
que segundo Henry Wallace estaria "usurpando
a soberania do povo"
e exercendo-se como protagonista dessa nossa nova era de "impérios
econômicos",
colocando a democracia no status de mero pró-forma na imanência de
um todo outro teor social, no sentido da dominação.
Essa
exemplificação devemos notar não ser fortuita, pois a crise da
bolsa, como vários historiadores sublinharam, apenas assinalou para
o mundo a realidade da hegemonia estadunidense - pois, propagando-se
as "quebras" à Europa revelada assim dependente das
finanças norte-americanas, e consequentemente aos países então
satélites das potências julgadas europeias.
Nota
Dobb, pois, ao se debruçar pela questão estadunidense, que "fora
dos países fascistas, é nos Estados Unidos que se encontra
evidenciação mais completa, nos tempos recentes",
dos poderes oriundos da concentração do capital exercendo-se como
dominação sobre a sociedade civil.
Dobb
se utiliza amplamente para tal demonstração, do relatório da
comissão de inquérito do Senado norte-americano, designada Comissão
La Follete. Conforme Dobb os volumosos anais da comissão contam "uma
história de sabor bem medieval, com seus bandos particulares de
condottiere, sustentados pelas grandes companhias para uso contra
seus próprios empregados, com a interpenetração do pessoal
comercial e a administração pública local, com seus métodos
mafiosos e o emprego da espionagem particular, suborno e brutalidade
em escala impressionante"
(p.353).
Sobre
a família La Follete, ao que parece sendo a mesma do Wiscosin, é
interessante notar que Rorty, contando sua própria história
biográfica de participação na esquerda americana a partir da
posição de sua própria família como tipicamente atuante, a cita
para exemplificar o tipo de esquerda institucionalizada que sucedeu a
esquerda ativista das décadas de dez e vinte, nos Eua.
De
fato, quanto a esta esquerda ativista, a Escola de Chicago é nela
protagonista com uma índole acentuada de anti-imperialismo e
anti-racismo. Mas Rorty ("Achieving our country"),
inversamente, está defendendo o anticomunismo, na base de que a
esquerda institucionalizada havia sido marcada pelo trauma do
stalinismo, dos processos de Moscou - e consequentemente da
perseguição a Trotsky, o que Rorty ilustra indiretamente citando
ativistas que nos Eua, como Whittaker Chambers, por terem rejeitado
esse destino da revolução viviam no temor de estarem sendo
igualmente perseguidos "pelos
capangas de Stalin".
La
Folette é então citado, pois sendo o apartamento de um dos membros
da família assaltado, o de Suzanne, foram roubados na ocasião os
arquivos da Comissão de Inquérito sobre os Processos de Moscou, que
Dewey tinha a ela confiado. Rorty ajunta pois, que o roubo deve ter
sido perpetrado "presumivelmente
pelos agentes soviéticos".
De
fato vários historiadores da Sociologia, como o excelente
texto de Marsal na "biblioteca Salvat", registram a transformação da disciplina, desde
seus inícios com a Escola de Chicago de Park, ao período subsequente em que
Chicago se torna a meca do pragmatismo de Dewey. Nesse segundo
cenário, há institucionalização devido a que o ativismo se
neutraliza, e as tarefas se concentram na assimilação da teoria
europeia junto à generalização das ideias pragmáticas que
instilaram internacionalmente o que seria a pioneira filosofia
genuinamente americana, o pragmatismo que hoje em dia tem em Rorty um
dos mais proeminentes representantes.
Mas nesse caso o
acontecimento que assinala a mudança não é apenas academização
como no Brasil, porque se os Eua introduzem um dos pioneiros
departamentos universitários de Sociologia, já isso ocorre como
produção dos organizadores da Escola de Chicago, cujo mérito é o
de generalizar pesquisas empíricas da realidade social - como a do
gueto, dos imigrantes, etc. - e consolidar a ecologia urbana com uma
teoria do padrão de mudança decorrente da ocupação das áreas
centrais pelas firmas organizadas. Ou seja, foram feitas pesquisas da realidade de discriminação social, com finalidade de acabar com todo tipo de injustiça social naquele país.
Essa
geração ativista, não obstante a organização universitária, é
estritamente relacionada à imprensa de esquerda, então ferozmente
voltada contra o neocolonialismo europeu e logo contra o racismo
local, e publicação de livros de popularização das descobertas
sociológicas julgadas de momentoso interesse politico.
A transformação na
sociologia americana pode, então, mesmo não sendo concomitante à
criação de departamentos, ser tipificada como de
institucionalização acadêmica e consolidação de um parâmetro
estritamente teórico a partir de um alinhamento euro-ocidentalizante
que vai traduzir o que estava ocorrendo na época como consolidação
da prevalência de um dos lados concorrentes da propaganda política
do período anterior, que em vez do anti-imperialismo dos sociólogos
e de grande parte da sociedade esclarecida, pregavam a entrada dos
próprios Eua na corrida imperialista - fosse por argumentos racistas
de superioridade étnica e por argumentos de superioridade religiosa
(cristianismo), ou ainda econômica. Paralelamente o capital
midiático iniciava sua trajetória de dominação total do mercado
cultural, alinhado estritamente com tais elementos imperialistas. Trajetória que Cl. Julien ("L'empire americaine") expõe com rara clareza.
Rorty, cujo livro citado
culmina num elogio à Universidade como instrumento de
conscientização contra o que designa o sadismo americano que não
chega, porém, a explicitar no que consiste além do problema do
racismo e do machismo, não liga a princípio seu anticomunismo e
apoio da política intervencionista americana a essa propaganda, mas
o que se verifica historicamente como todos sabem é que ela integrou
a retórica anticomunista como sua base mais firme de apoio
argumentativo-propagandístico.
Além disso, o que Rorty não
conta mas Claude Julien sim, é que a ação intervencionista
norte-americana em todo o mundo teve como objetivo e resultado a
substituição das potências europeias no posto de dominadoras das
economias tornadas dependentes - como o Brasil e o Irã, entre os
abundantes exemplos transcontinentais.
Os
Eua não deixaram só por isso, de conservar a diferenciação nítida
entre terceiro e primeiro mundos, pois tratou as empresas europeias
deslocadas pelas suas numa base de participação nos lucros, ainda
que em escala menor do que usufruíam antes, sendo que esses lucros
eram em todo caso os hauridos pelo domínio absoluto sobre as
economias do terceiro mundo, como exemplarmente o caso do petróleo
iraniano, já relatado em Julien a propósito do episódio Mossadegh.
Assim como o governo Goulart no Brasil, Mossadegh do Irã, nos anos cinquenta, era um governo totalmente representativo pelas vias legais do voto, ambos derrubados por generais da Cia agindo localmente a subversão da democracia, via suborno. A ação do general Haslocher no Brasil precedeu de três anos o golpe de 64, enquanto o general Shwartzkopf no Irã agiu do mesmo modo com considerável antecedência.
Mas se no Brasil os ditadores militares instituídos pela Cia podem ser considerados nazistas apenas pelos métodos que utilizaram, Zahedi, o primeiro-ministro imposto pela Cia no Irã após derrubar Mossadegh, era um nazista notório, que participou da guerra mundial.
A ação da Cia no Irã foi financiada pelas citadas multinacionais, que adiantaram um montante de milhões de dólares: Stantard Oil of Califórnia, Standard Oil of New Jersey, Texaco e Socony Vacuum Oil Cie, constituindo estas a associação designada ARAMCO. Ficaram com a maior parte do percentual do negócio do petróleo iraniano que Mossadegh havia nacionalizado. As empresas europeias que a ARAMCO beneficou para participarem do percentual foram: Anglo-Iranian oil company, Royal Dutch-Shell, Compagnie Française des Petroles. A Cia perdeu o controle do Irã quando ocorreu subsequentemente a revolução dos Aiatolás. Não há registro das fontes de subvenção ao golpe brasileiro, e na América Latina.
Assim como o governo Goulart no Brasil, Mossadegh do Irã, nos anos cinquenta, era um governo totalmente representativo pelas vias legais do voto, ambos derrubados por generais da Cia agindo localmente a subversão da democracia, via suborno. A ação do general Haslocher no Brasil precedeu de três anos o golpe de 64, enquanto o general Shwartzkopf no Irã agiu do mesmo modo com considerável antecedência.
Mas se no Brasil os ditadores militares instituídos pela Cia podem ser considerados nazistas apenas pelos métodos que utilizaram, Zahedi, o primeiro-ministro imposto pela Cia no Irã após derrubar Mossadegh, era um nazista notório, que participou da guerra mundial.
A ação da Cia no Irã foi financiada pelas citadas multinacionais, que adiantaram um montante de milhões de dólares: Stantard Oil of Califórnia, Standard Oil of New Jersey, Texaco e Socony Vacuum Oil Cie, constituindo estas a associação designada ARAMCO. Ficaram com a maior parte do percentual do negócio do petróleo iraniano que Mossadegh havia nacionalizado. As empresas europeias que a ARAMCO beneficou para participarem do percentual foram: Anglo-Iranian oil company, Royal Dutch-Shell, Compagnie Française des Petroles. A Cia perdeu o controle do Irã quando ocorreu subsequentemente a revolução dos Aiatolás. Não há registro das fontes de subvenção ao golpe brasileiro, e na América Latina.
O estudo de Dobb
sobre a atuação criminosa da firma americana contra o proletariado
permite deduzir que o arrefecimento do ativismo nos Eua foi ainda
decorrente de motivos de força.
Citando
os registros da Comissão La Follette, não encarregada da questão
stalinista, mas ao contrário, do problema trabalhista como num
prolongamento do período ativista anterior, mostra Dobb que um dos
eixos da ação anti-trabalhista das grandes firmas se irradiou da
National Association of Manufactores (Associação Nacional de
Manufaturas), uma federação de 200 associações de empregadores
organizada em torno do objetivo de derrubar as metas da Lei de
Relações do Trabalho então centradas na formação do direito
legal de negociação por parte dos sindicatos trabalhistas.
Foi
contra o sindicalismo organizado que toda a ação das firmas
reunidas se fez sentir. A partir da tentativa de "deliberadamente
sabotar a política nacional de trabalho e de negociação coletiva
como a mesma era apresentada na Lei de Relações do Trabalho",
conforme Dobb, o registro citado da comissão emenda que os membros
da Associação "empenharam-se
numa série de conspirações organizadas para destruir as liberdades
civis dos trabalhadores... Fizeram
aliança
com a imprensa, polícia e funcionários de segurança locais. Por
trás de sua política ilegal e anti-social, concentraram um poderio
econômico e político que desafiava qualquer aplicação local da
lei e do costume do país...".
O
Relatório prossegue expressando-se em termos de uma "intervenção
conspiratória organizada nas negociações coletivas"
que
"incluía
a aplicação em massa dos dispositivos anti-sindicais comuns como a
espionagem dos trabalhadores, o uso de furadores de greve,
profissionais, munições industriais, a lista negra, a demissão
discriminatória e uma série de armas semelhantes... Por trás desse
vasto e poderoso movimento, estavam os líderes do comércio e da
indústria, titulares reais, os grupos de banqueiros e financistas,
líderes da imprensa local e até recentemente muitos dos
funcionários públicos".
Esse
relatório sendo sobre "Violations
of Free Speech and Rights of Labor: Employers Associations and
Colletive Bargaining in Califórnia",
ficou claro que a Califórnia não estava sozinha mas exemplificava
uma realidade deploravelmente tornada habitual nos demais estados
norte-americanos.
Os
atos centravam-se, segundo Dobb, em "ataques
a indivíduos, espancamento e ferimentos à bala dos organizadores
sindicais, dissolução de reuniões e manifestações, e destruição
dos escritórios sindicais",
além de "inserção
de espiões em todo sindicato",
com o intuito, além de espionar, de provocação e destruição, e o
que se designou "espionagem
às claras"
consistindo em fazer-se seguir uma pessoa "durante
todo o tempo e em todos os lugares de modo a intimidá-la".
Dobb
salienta o uso dos sistemas de polícia particular - de modo que os
policiais são clandestinamente contratados para trabalhos de
segurança não previstos pela lei nem de responsabilidade da
organização policial estatal. Além disso que resultou num corpo de
guardas armados para serem usados contra grevistas, a comissão muito
enfatizou a compra de munição pelas firmas - citadas a Republic
Steel Corporation, a U.S Steel Corporation, a Carnegie's Bethlehem
Steel e Goodyear Tyre Company. A Bethlehem Steel, devemos notar, é
no Brasil o verdadeiro agente proprietário por trás do assim
designado “grupo Antunes”, portanto capital estrangeiro que detém
a maior parte dos direitos de exploração do quadrilátero ferrífero
de Minas Gerais, conforme Werneck Sodré.
Essa
munição detida pelas firmas norte-americanas, conforme Dobb,
provou-se pelos trabalhos da Comissão, que nunca
tiveram seu uso projetado a partir da suspeita de possibilidade de
ataque das firmas por parte dos trabalhadores, pois "as
quantidades prodigiosas de gás e equipamentos para gás, inclusive
espingardas de gás e granadas de gás",
sendo "inteiramente
imprevisíveis para qualquer uso, a não ser no desencadeamento de
ação ofensiva de caráter militar contra grandes aglomerações de
gente",
ostentavam a característica de que tinham o uso projetado para
longo, não curto alcance.
Ou seja, toda a ação
violenta era dirigida contra a multidão concebida apenas como de
manifestantes grevistas pacíficos, fora dos limites da fábrica, e
população porventura solidária.
Por
outro lado jamais foi registrado vendas feitas aos sindicatos,
enquanto "aproximadamente
metade das vendas de armas destinados ao uso de gás lacrimogênio no
país vai ter aos empregadores industriais"
e "todo
o curso da greve não exibe um só exemplo do uso de munições
industriais para proteger as fábricas de invasão ou assalto".
A
"usurpação
privada da autoridade pública, corrupção de funcionários
públicos, opressão de grandes grupos de cidadãos sob autoridade do
Estado e perversão do governo representativo"
foi testemunhada em conexão com o fato de que eram "homens
com antecedentes criminais"
que integravam as guardas particulares das companhias, além de que
as turmas de fura-greves eram compostas de "um
tipo especializado de rufiões... bem versados na violência e, às
vezes, autênticos gangsters".
O conservantismo
paranoico voltado contra os direitos da subjetividade, que o Only
Yesterday de Lewis reportou dos USA de entre-guerras, encontra assim
patamar de explicação considerável. Não se limita mais a um
fenômeno inexplicável ocorrendo unicamente no plano dos costumes.
É
impressionante saber que "numa
cidade dominada pela Republic Steel, as liberdades civis e os
direitos do trabalho foram suprimidos pela polícia da companhia. Os
organizadores sindicais foram expulsos da cidade".
Em
Harlan County, lojas e casas eram de propriedade da companhia tanto
quanto as cadeias, e seus guardas que perseguiam os residentes da
cidade e os líderes do sindicato local, eram "os
únicos encarregados de fazer cumprir a lei".
Quadrilhas
particulares de terroristas contratados pelas firmas atacavam os
sindicatos por todo o país, atirando, raptando e assaltando nas
estradas, em campo aberto e nos seus próprios lares, aos
organizadores trabalhistas, chegando Dobb a falar de um "reinado
do terror"
dirigido "contra
os trabalhadores que estavam simplesmente exercendo os direitos
garantidos pela seção 7(a) da Lei de Recuperação Industrial
Nacional."
A
dedução de Dobb é de que "entre
os métodos do fascismo e as polícias trabalhistas normais de
poderosas organizações capitalistas, é difícil traçar uma linha
divisória"
(p. 356). Assim como é difícil traçar uma linha entre os métodos
de ambos e o teor da acusação penal ao crime comum.
Na
sociologia empírica, realmente essa linha entre o crime comum e a
ação de instituições e membros supostamente representativos da
sociedade capitalista foi apagada pelo que vemos das pesquisas
reportadas por Bottomore ("Introdução
à Sociologia"),
como de Edwin Shuterland citada por Hermann Manheim, as quais
revelaram que estatisticamente a protagonista da taxa de crimes nos
Eua não eram os moradores dos guetos, nem jovens em situações
específicas de solidão e desamparo, nem os negros, mas "algumas
das mais poderosas empresas comerciais americanas"
(p. 273).
Ora,
retrocedendo ao exame do capitalismo totalitário na Europa, Dobb
tangencia a questão colonial e por aí estende-se sua apreciação
do problema do terceiro mundo, o que veremos subsequentemente.
"Colonialismo"
em Dobb conceitua geralmente o correlato da Dit (divisão
internacional do trabalho) típica de antes da "globalização",
isto é, a defasagem econômica logo existente entre os fornecedores
de matérias primas (margem) e os negociantes de produtos
industrializados (Centro). Sendo esse o quadro que se estabeleceu
primeiro entre as colônias e as metrópoles europeias que as
anexaram pela força, depois entre países periféricos que vieram se
tornar as ex-colônias, e os países centrais que antes eram suas
metrópoles.
Assim
pode-se falar até de um "colonialismo interno",
conforme Dobb, quando num mesmo país constata-se a mesma defasagem
entre uma região e outra.
O nazi-fascismo é exposto
por Dobb como uma economia centrada na produção bélica, militar,
que canaliza os esforços de todos os outros setores, sendo que a
vantagem resultante é oriunda da conexão dessa capacidade militar
com a política expansionista, de dominação imperialista.
É impressionante a
proximidade dessa definição com o quadro do “complexo
militar-industrial” estadunidense traçado por Cl. Julien, o alvo
expansionista sendo a margem, o “terceiro mundo” (América
centro-latina, Oriente Médio, Sudeste asiático, etc). No caso do
nazismo alemão, contudo, o alvo imperialista da Alemanha era
principalmente intra-europeu.
Dobb
mostra que essa política continha alta dose de racismo, porque a
dominação era pensada como estritamente vantajosa à economia alemã
- tratava-se de praticamente subjugar as nações alvos não
“germânicas”, como no caso da Polônia, cuja população os
alemães queriam nada menos que expulsar, incorporando o território
do país ao seu de modo a vir a ser habitado por uma população
alemã, deixando um pouco da mão-de-obra polonesa apenas para formar
"uma
classe oprimida e empregada por baixos salários em ocupações
não-qualificadas"
(375).
O
projeto para a Polônia seria apenas um vislumbre do tipo de
imperialismo
"mais
avançado e mais predatório",
mais impiedoso, intransigente e sistematicamente organizado que
"seguiria
em grande parte as linhas da economia da plantation, equipado com
métodos técnicos modernos porém apoiado no trabalho de uma
população colocada num nível mínimo de subsistência e consumo".
Ou seja, precisamente o verificado no terceiro mundo desde o status
colonial.
Essa
mudança de orientação do alvo expansionista do capital para
regiões intra-europeias na metade inicial do século passado se
explica, para Dobb, como introdução pelo nazi-fascismo, de dois
componentes com vistas a contornar o problema que àquela altura a
dominação enfrentava. Quais sejam, o do desenvolvimento das forças
produtivas e da maturidade política nas
regiões coloniais.
O que implicava que nelas estava em pleno curso os processos
revolucionários de sua descolonização política e/ou econômica.
Esses componentes sendo então a eleição de novos alvos a dominar e
inovação técnica.
Dobb deve assim estar
referenciando mais a América Latina, pois na África e partes da
Ásia a anexação pela Europa estava ainda em processo, e só entre
os anos cinquenta e setenta é que se verificou a ofensiva em prol da
libertação nacional. Em todo caso, Dobb salienta com precisão a
dependência dos quadros sócio-econômicos europeus tal como
determinados pelo capitalismo e a dominação da margem, em vez de
conceituáveis por alguma dinâmica interna.
É lugar comum a concepção
historiadora a propósito das causas das duas guerras mundiais serem
ligadas à competição das potências pelo domínio neocolonial, mas
isso não impede habitualmente manter-se as perspectivas de
explicação interna, como de Weber ou Marx.
Interessa-nos sobremodo aqui,
portanto, dois fatores esclarecidos por Dobb: a política
imperialista em relação à "colônia" e os recursos que
nesta estavam sendo adotados para se libertar. Essa é a linha mestra
da nossa “História do Brasil” traduzida em nosso esforço da
industrialização nacional e os aparatos da força atuando,
contrariamente a esse objetivo, o açambarcamento do potencial local
pelas potências “centrais”. História familiar a tantos
cenários, pró-forma, pós-coloniais.
O
ônus da pressão imperialista para evitar o desenvolvimento
industrial das colônias realmente obscurecia, segundo Dobb (p. 372),
as vantagens dessas colônias como campo de investimento, pois o
controle exercido para manter "a
economia colonial tão complementar da economia da metrópole como,
em séculos anteriores, o mercantilismo queria fazer",
exigia demasiada soma de investimentos.
Aqui vem a tradução
contemporânea da contradição do capitalismo já citada, pois tais
exigências colocavam contraditoriamente por um lado o desejo de
expandir o campo de investimento, e por outro o desejo de expandir o
mercado para os produtos.
Por
parte das ex-colônias agora subsumidas ao dependentismo que como
vimos Dobb subscreve como situação do mesmo modo "colonial",
nas décadas iniciais do século XX houve o que ele designa
"nacionalismo
colonial, embora figura nova, como personagem destacado no cenário
histórico".
Já
especifiquei repetidamente que de fato o século XIX inteiro é palco
desse nacionalismo na América Latina pró-forma pós-colonial, mas o
que Dobb está acentuando parece ser que agora a expressão da luta
anticolonialista obtém um relevo incontornável. O objetivo
nacionalista de "converter
as regiões coloniais em unidades autônomas, no sentido econômico
bem como no político, seguindo políticas de industrialização
livres da influência do capital estrangeiro e recorrendo a tarifa
autônoma e política financeira modeladas para esse fim",
visaram estreitar sempre mais as oportunidades expansionistas do
capital central.
Dobb
especifica os recursos então adotados pelo que hoje designamos o
“terceiro mundo” (nem primeiro central-capitalista, nem segundo
comunista):
"barreiras
tarifárias dando preferência às indústrias nativas, o boicote dos
produtos e modas estrangeiros, um movimento no sentido de uma
política bancária autônoma e a retirada de privilégios políticos
e econômicos especiais aos estrangeiros"
(p. 373),
de modo que tais políticas consolidando-se na China, Índia, Oriente
Próximo e América Latina pressagiavam o que o continente africano
poderia em seguida tentar fazer.
Como sabemos, o resultado da
primeira guerra, determinada pela concorrência entre as potências
imperialistas europeias, induziu à eclosão da segunda guerra com
características distintas. Na verdade, como fator de eclosão da
primeira guerra, temos que o poderio alemão perseguia interesses
expansionistas além do continente europeu que coincidiam com os dos
países liberais notadamente ingleses, como se torna conspícuo na
saga militarista de Lawrence no Oriente Médio. O neocolonialismo
como partilha afro-asiática pelas potências europeias estava sendo
motivo de conflito.
Mas
na segunda guerra as características diferem, em função do
resultado da primeira ter suscitado condições de descontentamento
social nos países germânicos vencidos, tão agudas que favoreceram
a pregação do ódio agressivo totalitarista e o recurso racista de
fazer dos "outros" raciais-comportamentais os bodes
expiatórios ideais. Racismo belicista que até então não havia
sido a dominante de partido, ainda que já presente como de
resto em todo o continente europeu dessa época,
devido ao citado acirramento da concorrência.
Assim se explica a histeria
nazi-fascista institucionalizar-se nesse ínterim para vir a
protagonizar um dos lados do conflito subsequente. Mas Dobb inova em
relação a esse capítulo conhecido da História, ao focalizar a
qualidade de investimento econômico envolvido.
A
seu ver o estado de coisas consolidado após
as duas guerras, não obstante ter eliminado o totalitarismo na
Europa, fazia supor que o rumo do capitalismo futuro "terá
por toda parte que passar para algum tipo de fase fascista"
(p. 381).
Nesse estado de coisas,
segundo ele, houve um progresso sem precedentes da organização
trabalhista na Europa, o que podemos observar refletido na história
da sociologia em termos da movimentação exemplificada na
contribuição do casal Beatrice e Sidney Webb, somando esforços na
pesquisa empírica para obter apoio factual quanto ao necessário a
políticas reformistas visando incremento dos direitos civis. Ou
seja, não tanto expressando o radicalismo anti-legalista de Sorel,
cujo argumento era de que a democracia, por seu funcionamento
burocrático, era apenas um meio do Poder de classe. Mas como é
notório, a verve soreliana dessa época foi oportuna tanto a
anarquistas, quanto a comunistas e fascistas.
Em todo caso, ao ver de
Dobb, o progresso do trabalhismo foi paralelo ao surgimento de um
capitalismo de Estado cujo ajuste ao monopolismo do capital atingira
um patamar tal que a este permitia frear as inovações que lhe
parecessem desvantajosas para o momento e em geral dirigir ao seu
talante os rumos de mudança ou permanência de quaisquer fatores,
menos o da organização social dos trabalhadores.
A
propósito da concentração de capitais específica do pós-guerras,
"A
ditadura dos carteis",
de Rudolf Mirow, é pertinente entre os inúmeros estudos que se
interessam por esse monopolismo como traço mais conspícuo da
história recente.
Na verdade, a substituição da importância maior de políticos e governos pela figura do empresário multinacional é atestada desde os anos setenta, como por exemplo no artigo de Jameson que integra a coleção de textos selecionados por Heloisa Buarque intitulada "Pós-modernismo e política". Mas este texto de Jameson apenas demonstra que ele não compreendeu coisa alguma do que realmente estava acontecendo, em termos da evidenciação do capitalismo como dominação sobre o terceiro mundo. Como demonstrou Cl. Julien ("L'empire americaine") e vários economistas, está comprovado que o nível de potência desfrutado pelos USA são dependentes da exploração imperialista.
Na verdade, a substituição da importância maior de políticos e governos pela figura do empresário multinacional é atestada desde os anos setenta, como por exemplo no artigo de Jameson que integra a coleção de textos selecionados por Heloisa Buarque intitulada "Pós-modernismo e política". Mas este texto de Jameson apenas demonstra que ele não compreendeu coisa alguma do que realmente estava acontecendo, em termos da evidenciação do capitalismo como dominação sobre o terceiro mundo. Como demonstrou Cl. Julien ("L'empire americaine") e vários economistas, está comprovado que o nível de potência desfrutado pelos USA são dependentes da exploração imperialista.
Mas
o importante aos nossos propósitos é notar que nessa época os
governos não-fascistas estão realmente comprometidos com a retórica
anti-truste e socialmente reformista – como o clássico exemplo de
Roosevelt. O que convém ao que vimos acima, pois o capitalismo, por
mais incorporado que esteja ao Estado, não pode atuar por meio deste
como nos séculos anteriores, ao
menos em se tratando de política interna. A
contradição aqui aparente se resolve, portanto. A incorporação
Estado-capital nesse cenário de pensamento sócio-político
esclarecido só pode ser retomado pelo ângulo da
política externa (imperialismo). Foi
desse trampolim que o capitalismo se reorganizou ao ponto da
dominação massiva da atualidade.
O
que induz ao corolário de que o neoliberalismo econômico em termos
de doutrina da neutralização do Estado, e a autonomia do empresário
como agente da dominação atual, não são fenômenos autônomos reais, mas reflexo do
golpe de classe que reverteu o Estado em atuante da política externa
– na acepção assim definida de imperialismo – como dominante
ou dominado.
Um
dos focos importantes do livro de David Halberstam ("The powers that be") está na evidenciação
de que a trajetória do poder da mídia-imperialista-direitista nos
USA é a história da atuação no sentido de neutralizar o
legislativo, transformando o perfil do sistema governamental naquele
país que tornou-se de preponderância da figura do presidente, o
único
personagem (carismático) , mistificado diretamente acessível ao
público, pela rede midiática – isto é, sem a mediação
democrática (racional) das instituições legislativas que
representam a heterogeneidade
da composição local.
Halberstam
mostra inclusive a chantagem de Kyle Palmer, visando demover da
intenção de candidatar-se a um político realmente representativo,
pois Palmer se interessava por um outro candidato, passando a negar
verbas à iniciativa contrária. Ele tinha portanto poder sobre a
canalização das verbas que diretamente implicavam o resultado
eleitoral. Como esse episódio, a guerra do Vietnã, a política
estadunidense para a China e outras decisões históricas importantes
são demonstradas como efeitos da imposição do capital midiático.
Todo
o livro de Halberstam esclarece as ligações diretas dos políticos
eleitos e linhas adotadas do governo com o controle exercido pelo
capital midiático. Esse controle não foi exercido meramente por
questões de acumulação do capital, mas principalmente essa
acumulação refletiu os padrões tradicional-oligárquicos-cristãos
das elites regionais.
Focaliza
também por parte dessas mídias que protagonizam ainda hoje o
mercado cultural, as operações de neutralização e
ridicularização das composições democráticas, anti-racistas e
trabalhistas. Antagonismo que como todos sabemos, explodiu de forma
incontrolável no governo Nixon, caracterizado por um estado de
contestação popular que beirou a guerra civil.
Sobre
essas operações persecutórias das liberdades civis é importante
salientar o que Halberstam testemunha como cotidiano da publicação
midiática: o mais severo poder censório exercido por parte dos
editores de jornais conforme diretrizes dos proprietários, poder que
talvez nem mesmo os piores ditadores pretenderam, mas que instituiu
um império de mentiras assim como Halberstam o documenta amplamente.
Além
disso, documenta ainda a história das inserções de padrões de
cena violentos, mentalidade competitiva, esquemas infantilizantes e
de preconceito etário, na ordenação do espaço de comunicação
televisivo. Essa linha de mídia estava sendo atacada, concomitante a
publicações como a de Halberstam, pela imprensa internacional não
necessariamente ligada aos grupos tradicionalistas-oligárquicos. A
entrevista de Jacques Fauvet à editora Salvat, na época sendo ele
diretor do Le Monde, demonstra que todos esses procedimentos eram
criticados como “intoxicantes” por um movimento em prol da
comunicação saudável que estava sendo organizado pelos profissionais de comunicação interessados na melhoria das instituições assim como das condições de sua atuação.
Dobb
pensa que a organização do trabalho que paralelamente evolvia,
precipitaria uma sociedade igualitária e justa, ou então
precipitará a pressão do capitalismo monopolista para forçar de
novo o Estado a se por a seu serviço, solver o sindicalismo livre
e agrilhoar o trabalho "com
o braço da sanção legal",
essa a hipótese que ele considera mais provável. Realmente a
queda do muro de Berlim e a subsequente “globalização”
confirma essa perspectiva.
Não significa que
em seu livro Dobb não deposite esperanças na ação organizada dos
trabalhadores, mas ao que parece não crê que ela venha a ser logo
exitosa, ou que não deva equacionar o radicalismo extremo da opção
capitalística.
De fato Dobb não menciona
que um dos principais traços dessa época foi a compulsão
norte-americana sobre o terceiro mundo em função de uma política
de transferência de capitais extremamente desvantajosa para este,
estudada por exemplo por Romanova ("A expansão econômica dos
Estados Unidos na América Latina"). A política de exportação
de capitais antecedeu a exportação da própria unidade de produção
que caracteriza a globalização.
Ou
seja, primeiro o golpe militar foi dado para evitar que nossa
industrialização fosse feita sem importação de capitais – que
Romanova mostrou como operava por meios fraudulentamente abusivos.
Mas na “redemocratização” a industrialização estatal,
dos setores estratégicos, assim obtida mesmo num panorama de geral
banditismo governamental contra o capital privado nacional, para
privilégio da penetração estrangeira, foi desmantelada
para substituição pelo capital multinacional.
No cenário antecedente,
ainda ditatorial, a política de ajudas e empréstimos com finalidade
declarada de fomentar o desenvolvimento local na verdade se revelou
uma armadilha para as economias recebedoras, porquanto a flutuação
dos juros é planejada de tal modo que se torna incontrolável e as
condições do empréstimo são feitas para que praticamente a
economia recebedora acabe pagando de início o montante na
totalidade, ficando ainda assim comprometida com uma dívida
gigantesca gerada somente por essas condições contratuais absurdas.
Em contrapartida essas
economias recebedoras, notadamente americano-latinas, eram obrigadas
a submeter-se cabalmente ao controle e diretrizes da nação
emprestadora, os Eua. Por exemplo, esta devia ser informada de todos
os pormenores do planejamento governamental local, de todas as
características do território, população, etc.
Como essa fase foi
rapidamente compensada aqui pelo acirramento da mentalidade e
políticas nacionalistas, de repúdio a tais alinhamentos econômicos
prejudiciais, desencadeou-se a prática do intervencionismo
perpetrado para-legalmente pelos serviços secretos, para tais fins
sendo encarregados altos funcionários da Cia – documentadamente
tanto no Irã quanto no Brasil. O Estado de terror implementado é
sobejamente conhecido.
Dobb,
pronunciando-se antes do equacionamento desses acontecimentos, supõe
que os acontecimentos mais importantes no pós-guerras foram a
consolidação do mundo socialista além do capitalista e "o
número crescente de antigos países coloniais que surgem como países
mais ou menos independentes",
não alinhados a qualquer dos dois lados mencionados, a essa altura
em plena "guerra
fria",
isto é, a disputa dos dois lados por áreas de influência sob a
égide de União Soviética comunista à Leste ou Estados Unidos
capitalista à Oeste.
A política soviética
revelou-se contudo de imperialismo no seu próprio domínio e o
stalinismo tem sua própria história repressiva que no entanto foi
explorada de modo não científico mas propagandístico pelo
Ocidente. A queda do muro de Berlim, expressando a reunificação da
Europa antes dividida em Leste e Oeste, e a superação da União
Soviética precipitou o novo mapa geopolítico, interpretado
propriamente como conflito Norte-Sul – dos países centrais e
periféricos (margem). Isso ocorre juntamente com a mudança na
economia industrial (Globalização).
Todo esse cenário de
intensa transformação na transição ao século XXI está por ser
conceituado, e seja como for que se o faça creio que a reordenação
do próprio Capitalismo como Assimetria Internacional (Imperialismo)
em vez de processo de classes local se tornou axiomático, importando
revisão dos fatores histórico-discursivos coordenados ao pensamento
eurocêntrico (“Modernidade”).
Quanto à questão da
racionalidade ligada à consolidação do capitalismo, Dobb não
pensa que se comprove, antes das duas guerras, algum padrão
relevante de bem estar social, digamos, pelo trabalho. Estende sempre
as condições adversas do controle do capitalismo sobre os
trabalhadores, que vimos típica seja do Sistema Mercantil, seja do
capital norte-americano, também à Europa.
Estuda
paralelamente aos esforços para controlar o mundo colonizado que
fizeram na Inglaterra "o
Governo e a iniciativa privada muitas vezes se tornarem partes de um
só mecanismo"
(p. 352), assim como no caso da França, a diplomacia atuar
"em
meia dúzia de capitais".
Paralelamente
constata que "é
no seu trato com o trabalho, entretanto, que esse regimento
monstruoso do poder econômico concentrado se mostra mais evidente,
surgindo muitas vezes como um domínio que opera não através, mas
independentemente, da maquinaria governamental".
Assim,
falando sobre a Grã-Bretanha dos tempos iniciais do sindicalismo,
"mesmo
que na época isso fosse aceito como parte de uma ordem de coisas
tradicional e santificada de modo a despertar poucos comentários",
impressiona o que se sabe "das
tiranias da oficina tommy-shop
[onde
se trabalhava por artigos, em vez de por salários], da casa possuída
pelo empregador e da expulsão de empregados que fizessem coisas
desagradáveis para seus patrões, do poder destes para perseguir um
trabalhador por causa de opiniões manifestadas por este ou de suas
atividades, para privá-lo de emprego e pô-lo na lista negra entre
os demais empregadores;
do
preconceito tanto da lei quanto de sua interpretação pelo
magistrado local, que por muito tempo virtualmente privou a classe
trabalhadora do direito de associação e reunião política
independente".
Sobre
isso,
"A história da Riqueza do Homem",
de Leo Hubberman, consegue ser até mais contundente,
assim como mais minucioso quanto a documentação a propósito do
envolvimento governamental dos países imperialistas nas transações
de força e de diplomacia de que resultou a partilha afro-asiática e
a princípio, o trânsito do controle econômico da América Latina
da Inglaterra para os Eua.
Mas como tenho insistido,
o aspecto para-legal como atuação dos serviços secretos, só vem a
ser estudado em Claude Julien como a opção estadunidense desde a
década de cinquenta, assim como por René Dreyfuss em se tratando do
golpe americano-latino especialmente brasileiro, devendo-se ajuntar
mais estudos de pesquisadores nessa linha.
Eu não creio que haja qualquer
vantagem em abstrair os horrores da ditadura americano-latina,
relatados em livros como o de Frei Beto ("Batismo de sangue"),
sobre seu ativismo, junto com o infelicitado frei Tito de Alencar, e o
caráter hediondo da perseguição política que sofreram, sendo
ainda muito explícito sobre os métodos da ditadura e casos mais
conspícuo das vítimas, além de mencionar o panorama dos grupos
ativistas da época.
Ou
"O
que é isso companheiro",
de Gabeira, além da informação dos manuais de história como o já
citado História 2, da editora Lê. De fato, tem havido uma censura
sub-reptícia sobre esse tema, e o próprio cômputo do que houve,
assim como das vítimas, é difícil em toda a América Latina
por ter sido organizado por militares e serviços secretos, censura
ambiguamente paralela ao que já mencionei em termos de um novo
aparato discursivo de valorização da hediondez praticada em favor
do capitalismo por governos de forma nenhum representativos da
mentalidade local à exceção da casta minoritária que assim se põe
na condição de mero Alter-Ego de um Centro neurotizado, pois fator
de identidade do Ego/Sujeito da História reduzida à mistificação
da racionalidade (“desenvolvimento” =capitalismo).
Outro
problema, que não compacta necessariamente a abstração dessa
temática, é o lançamento de hipóteses como a expressa na ficção
realista de Paulo Francis sobre essa época, especialmente "Cabeça
de negro",
onde se propõe que a luta armada - não o que expressa a totalidade
das opões políticas ativistas, mas especificamente o que foi
suscitado como reação minoritária pelo "golpe dentro do
golpe," em 1968 - foi na verdade ocultamente financiada e
organizada pela direita a fim de propiciar argumento para continuar e
até acirrar a perseguição.
Não
disponho de documentação suficiente para analisar a hipótese, mas
devemos lembrar, primeiro, que a opção pela luta armada não é
expressiva da maior parte da esquerda mesmo perseguida, como se nota
pelos comentários de Werneck Sodré; e também o escândalo
suscitado em 1979, por causa da bomba que de fato explodiu no colo de
um militar, quando se encaminhava este para lançá-la num show de
música popular no Riocentro. Como depois constatado e provado, a
ação desse militar fôra comandada a fim de lançar a culpa da
bomba na esquerda e reiniciar uma fase de perseguições. Todo o
discurso pseudo-legitimante do golpe se fez sobre essa mentira da
existência de uma esquerda armada local.
A essa altura porém, do caso
da bomba bem após 68, a esquerda sobrevivente dos grupos de
extermínio e tortura estava exilada na Europa ou nos Eua, como
Gabeira, e não havia qualquer indício de oposição séria ao
regime ditatorial.
Essa esquerda pôde retornar
ao país com a anistia política, na redemocratização, o que também
significou impedir processos futuros contra os seus perseguidores
comissionados pelo Estado ditatorial.
Essa
foi a condição da "anistia", o que me parece contudo um
grande erro político aceitar-se, ainda que na época possa ter
semelhado o sine qua non do retorno de alguma sanidade política.
Hoje em dia, há quem na imprensa se orgulhe de ter cometido crimes
hediondos como funcionário dos militares, jactando-se de ter evitado
o comunismo, quando na verdade Jango era um governo democrático e
representativo - um dos mais votados políticos de
toda
a história do país -e não há sério indício de nenhuma revolução
em marcha na época de precipitação do golpe.
A
meu ver, a abstração do tema da hediondez praticada significa
apenas o desprezo pela pessoa humana do americano-latino, o que se
pode esperar pelas expectativas da Geoegologia (dominação falsamente "evolucionista") e um Nuremberg local
seria necessário para reverter tal condição de desprezo manifesto.
É espantoso como os horrores dos nazistas contra suas vítimas seja algo tão devidamente salientado, mas as práticas ainda piores verificadas na ditadura recente contra o americano-latino simplesmente seja algo com que se lide internacionalmente como aquilo de que não é necessário falar.
Apesar de ser tão conhecido, creio ser oportuno registrar que o nazismo oficial, tanto quanto o fascismo, foi um terrorismo de estado praticado por países como Alemanha e Itália. Na Alemanha, etnias perseguidas como de judeus, ciganos, ou pessoas perseguidas por outros motivos, como ativistas políticos democratas ou socialistas, eram torturados barbaramente nos "campos de concentração", para onde eram mandados crianças, mulheres e todos os demais pertencentes à etnia, sofrendo todo tipo de barbarismo, sendo eliminados em massa nas câmeras de gás. No Brasil e América Latina das ditaduras recentes, o mesmo foi feito, sem porém os campos de concentração, contra centenas de milhares perseguidos pelo regime, especialmente os representantes da inteligência nacional (profissionais liberais).
É espantoso como os horrores dos nazistas contra suas vítimas seja algo tão devidamente salientado, mas as práticas ainda piores verificadas na ditadura recente contra o americano-latino simplesmente seja algo com que se lide internacionalmente como aquilo de que não é necessário falar.
Apesar de ser tão conhecido, creio ser oportuno registrar que o nazismo oficial, tanto quanto o fascismo, foi um terrorismo de estado praticado por países como Alemanha e Itália. Na Alemanha, etnias perseguidas como de judeus, ciganos, ou pessoas perseguidas por outros motivos, como ativistas políticos democratas ou socialistas, eram torturados barbaramente nos "campos de concentração", para onde eram mandados crianças, mulheres e todos os demais pertencentes à etnia, sofrendo todo tipo de barbarismo, sendo eliminados em massa nas câmeras de gás. No Brasil e América Latina das ditaduras recentes, o mesmo foi feito, sem porém os campos de concentração, contra centenas de milhares perseguidos pelo regime, especialmente os representantes da inteligência nacional (profissionais liberais).
Que é necessário reordenar
o pensamento político em função dessa realidade histórica
torna-se evidente se por ela nós devemos entender além das práticas
do terror capitalista, a ordenação discursiva da anulação de
qualquer representação de um Sujeito não-moderno-ocidental. Assim
compreendemos o porque dessa temática se revelar um elemento
antinazista no âmbito internacional recente, de recrudescimento das
mentalidades abusivas totalitárias.
Não suponho, porém, que
seja exequível no contexto presente, onde o que se tem no país é
expressão dessas mentalidades junto à desnacionalização como
fator de manifesta inferiorização da população local. A
“polonização” do brasileiro, para usar o que vimos com Dobb,
está patente numa política insana.
Deveríamos
ao menos providenciar um monumento de memória das vítimas
conhecidas, pois militavam em frentes muito variadas – como nas
Juventudes Católica da época, (Jec e Juc dos "freis" em
prol da filosofia de Teilhard de Chardin) - objetivando uma sociedade
mais justa. Não esposo tal filosofia, mas o ressalvo para mostrar o
quão incoativo a um stalinismo radical era o cenário político da
época.
Esse
monumento, contrariamente ao que o História 2 documentou como
objetivo expresso dos ditadores na Argentina, típico dos demais
países - fazer com que se
esquecesse
da atuação desses ativistas nacionalistas até então exercida.
O fato dos sobreviventes,
prosseguindo na sua produção intelectual e/ou atuação política
poderem ostentar rupturas com relações aos investimentos que foram
os seus naquela época, evidentemente é tema que não interfere com
a consideração acima.
Também não
significa a fantasia de atribuir um nível tão profundo do conflito
social somente à ditadura e sua motivação econômica, numa época
como a atual, onde a tecnologia dos implantes trouxe o terror para o
cotidiano, a partir da generalização pela população até
infantil, do rapto e da mera utilização comercial dos corpos; a
repressão atinge protestos de ecologistas que se somam na ordem da
simples sobrevivência da biosfera planetária bem como da melhoria
dos níveis de vida num ambiente onde a deterioração das relações
sociais tem sido dirigida
por interesses os mais mesquinhos do capitalismo
imperialista-info-midiático-multinacional; além do recrudescimento da
violência urbana de que se tem diariamente notícia; e do fato de
que no campo o latifúndio tem perpetuado os métodos da ditadura
contra os ativistas que lá tentam minimizar as piores condições da
exploração da população, agindo os latifundiários ainda
geralmente com as mesmas prerrogativas de impunidade.
Mas
somente implica notar que a solvência das temáticas históricas
numa homogeneização radical tornaria impossível lidar com os
problemas assim como eles se apresentam, sempre relativos a contextos
específicos.
Não devemos deixar que se
esvaia a consciência da nacionalidade apenas porque há níveis do
conflito social que tendem a mundializar-se, pelo contrário, a
coalescência do respeito às etnias e às nacionalidades como
cenários constitucionais de ajuste histórico-político da
heterogeneidade local, será um sinal de que os obstáculos
psíquico/desejantes à redução dos conflitos contemporâneos estão
sendo superados, o que é coerente aos princípios da Geoegologia - meu conceito do capitalismo como Assimetria Internacional e Dominação Cultural-eurocêntrica.
Retornando ao que víamos, não
obstante a oportunidade dos demais autores considerados, Dobb é
realmente importante na liberação de uma visão de conjunto do
processo capitalístico, isento do a priori da "racionalidade"
e especificando o caráter crucial que nele representa o colonialismo
e o imperialismo, além da exploração sádica do trabalho.
Assim,
devemos considerar seriamente sua previsão de que o capitalismo é
incompatível com o
desenvolvimento das liberdades civis e das conquistas de autonomia,
seja das margens, seja dos trabalhadores, em função do modo como
historicamente tem se afirmado a Globalização como divisão do
mundo em dois hemisférios separados por uma linha de pobreza que
traduz o fato de uma dominação sem precedentes do "Norte",
as antigas metrópoles colonialistas, sobre o Sul, as ex-colônias.
Num estudo mais recente sobre a globalização, Dreyfuss mostrou que
uma mesma firma
multinacional emprega na Europa, trabalhadores a quase vinte dólares
por hora, enquanto no Sudeste asiático paga menos de um dólar por
hora.
As
condições de isenção de impostos, possibilidade de controle
político, providência local da infraestrutura requerida, e
garantias totais de submissão da população, costumam ser premissas
da captação do "investimento" do capital internacional
num país do terceiro mundo, no âmbito da "nova Dit" que
implica a translação da própria indústria para os países
periféricos, mas somente nessa base "complementar" como
define o vocabulário econômico: de nenhuma forma nacional ou
autônoma e atendendo aos interesses exclusivos da população local
em vez de aos interesses exclusivos da multinacional e sua sede
norte-americana ou europeia, em todo caso Central nessa acepção de
assimétrica ao cenário que explora.
Seria ainda oportuno
mencionar algo dos estudos sociológicos que desde a guerra fria vem
se acumulando na evidenciação das mudanças sociais correlatas à
progressiva consolidação do monopolismo que hoje conhecemos como o
capitalismo multinacional.
Uma
das facetas importantes é a que salientou David Riesman. O caráter
da exploração trabalhista resvalou para a sedimentação de uma
extratificação severa de status, em vez de classes econômicas, tão
logo a organização dos trabalhadores implementou níveis de vida
melhores ao proletariado.
Dobb
na verdade rechaça que tenha havido algum "aburguesamento"
do proletariado, "com
suas casas próprias e jardins, aparelhos de rádio e mobília
comprada a prazo",
que viria a configurar no século XX algum fenômeno "jamais
previsto por Marx",
de modo que para Dobb "parece
restar pouca base para questionar o caráter esmagadoramente
proletário da sociedade atual na Grã-Bretanha - a menos que esse
caráter seja questionado por quem identifica o proletariado ao
lumpen-proletariado e por aqueles que supõem ser o status de classe
de um assalariado imediatamente modificado se suas roupas não
estiverem poídas, se conseguir uma ou duas libras por ano em juros
sobre bônus, ou se colher batatas num pequeno terreno"
(p. 349).
Em todo caso, há muita
gente tão preconceituosa que parece considerar seriamente essa
modificação, e conforme Riesman e outros compreenderam à medida
que foi se consolidando a noção de sociedade de massas, e de
consumação em massa, na "era pop" os padrões de
mercatorização se alteraram tanto que ou se devia acreditar ter
atingido uma sociedade igualitarista, ou então novos dispositivos de
extratificação deviam ter se introduzido. É claro que este segundo modo é o verdadeiro.
A história do neoliberalismo econômico, dos anos oitenta até hoje, é a de uma crescente intervenção em todas as formas de expressão, intervenção patrocinada pela dominação do Estado pelo capitalismo, bem ao contrário do Estado mínimo preconizado pela doutrina, de modo que hoje em dia, nada mais falso do que considerar ter havido superação dos mesmos problemas que vinham se acumulando ao longo do século vinte.
A recusa a todos os tipos de cooptação "identitária" pela mídia; o repúdio ao sócio-apartheidismo generalizado, com denúncia dos casos de discriminação, exigindo que os culpados sejam presos ou paguem multa; a valorização da cultura popular heterogênea; a expansão do mercado interno independente do domínio de multinacionais; a participação, dentro da legalidade, em atos contrários aos abusos; a expressão da crítica intelectual à dominação cultural e informática e principalmente contra todas as demonstrações de mentalidade sádica/preconceituosa; a publicação de estudos visando diagnóstico sobre os desvios mentais dessa mentalidade sádica; a exigência de regulação legal, visando os interesses da população, sobre produtos de comércio e indústria como o "computador pessoal"; a exigência das garantias da privacidade das pessoas físicas; são alguns dos meios pelos quais colaboramos para a superação do descalabro presente.
As restantes mudanças estruturais necessárias são o que precisamos viabilizar a partir de estudos e propostas a serem apresentados para a superação das fraudes e distorções que impedem a democracia ser efetiva.
Aprendemos nas guerras do século XX que o nazismo não se detém senão pelo enfrentamento da força, e na redefinição da história que este blog focaliza, aprendemos que o capitalismo atual não se diferencia do nazismo. Se puder ser evitada a confrontação em nível de guerra civil com objetivo de salvaguardar a qualidade de vida, é preciso aplicar os meios requeridos.
Nota: a "cultura popular" não é a "cultura de massas", mais conhecida como "mídia". A cultura de mídia é feita para ser dirigido ao povo, por grupos privados de "big business" ("capitalistas"); a cultura popular é heterogênea, feita pelo povo na acepção de população ela mesma heterogênea (não na acepção "identitária"). Aquilo que a mídia anda mostrando na Europa a partir da indústria fonográfica ou "sucessos" de televisão não é necessariamente a cultura brasileira ou a que se produz do terceiro mundo.
E devemos enfatizar, como o que esperamos ter ficado claro neste artigo, que "capitalismo" é diferente de "livre empresa" comercial ou industrial. O "capitalismo" implica dominação do mercado, monopólio contra a livre empresa e contra o Estado de direitos civis que com esta se coaduna. //===============
==========================
As restantes mudanças estruturais necessárias são o que precisamos viabilizar a partir de estudos e propostas a serem apresentados para a superação das fraudes e distorções que impedem a democracia ser efetiva.
Aprendemos nas guerras do século XX que o nazismo não se detém senão pelo enfrentamento da força, e na redefinição da história que este blog focaliza, aprendemos que o capitalismo atual não se diferencia do nazismo. Se puder ser evitada a confrontação em nível de guerra civil com objetivo de salvaguardar a qualidade de vida, é preciso aplicar os meios requeridos.
Nota: a "cultura popular" não é a "cultura de massas", mais conhecida como "mídia". A cultura de mídia é feita para ser dirigido ao povo, por grupos privados de "big business" ("capitalistas"); a cultura popular é heterogênea, feita pelo povo na acepção de população ela mesma heterogênea (não na acepção "identitária"). Aquilo que a mídia anda mostrando na Europa a partir da indústria fonográfica ou "sucessos" de televisão não é necessariamente a cultura brasileira ou a que se produz do terceiro mundo.
E devemos enfatizar, como o que esperamos ter ficado claro neste artigo, que "capitalismo" é diferente de "livre empresa" comercial ou industrial. O "capitalismo" implica dominação do mercado, monopólio contra a livre empresa e contra o Estado de direitos civis que com esta se coaduna. //===============
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